A Interminável e Caótica Black Friday  

1

 

-Ainda acho que sua vó vai matar a gente - disse Val, com o canudo na boca - Ela avisou pra gente não vir pra Quarta Leste.

A Scorpia flutuava parada no espaço, com a imensa estação espacial que comportava um shopping center à sua frente. Seus tripulantes estavam esperando uma autorização para atracar há pelo menos duas horas e não havia mais nenhuma forma de se passar o tempo que não houvesse sido vencida pela impaciência.

-Meh - respondeu Alex, dando de ombros - Tecnicamente, nem estamos na Quarta Leste.

-Na verdade, estamos sim - disse Juron, o mais velho da nave, mexendo em seus mapas holográficos do Multiverso - Acabamos de receber uma atualização que diz que esse território foi anexado à Dinastia Sung.

-Ah, ótimo - respondeu Alex, jogando as mãos para o alto - Agora estamos esperando por naves da Dinastia cruzando pra lá e pra cá?

-Relaxa - disse Banzai, a capitã da nave, lendo algum holograma sobre novos propulsores à venda - A Dinastia atualiza esses territórios de tempos em tempos pra abocanhar algumas regiões a mais. Assim que a Estação reclamar de ter sido anexada, eles refazem os mapas.

-E se ninguém reclamar, acorda no dia seguinte como contribuinte deles - emendou Hilo, firme no terceiro caderno consecutivo de seu sudoku - Quando o boleto chega, é aquele desespero… tem vídeos hilários de reações na multinet.

-Cara, que errado! - disse Valéria, entre uma sugada e outra de canudinho de sua bebida que praticamente já havia se esgotado.

-É o Multiverso, bebê - disse Banzai, estoica.

-Já reparou que a gente sempre fala isso pra justificar tudo? “É o Multiverso”, como se as coisas sempre fossem assim e sempre serão assim - reclamou ela - O Multiverso é o que a gente faz dele.

-Ah, pronto - disse Banzai, sorrindo - Ela entrou na fase questionadora da adolescência. Já aviso pros dois, nada de puberdade nas minhas poltronas novas.

-Credo! - disse Valéria.

-Ah, vai, não é possível que vocês não fiquem injuriados com o que esse pessoal da Dinastia faz - argumentou Alex - Quer dizer, a Dinastia Sung faz parte da Hierarquia, e esses caras são uns demônios!

-Ei, ninguém está dizendo o contrário, garoto - disse Juron, com seu tom de tio cansado - Mas vá tentar mudar isso para ver o que acontece!

-Vai puxar briga com um bocado de gente - disse Hilo.

-Ah, a gente acaba brigando com o Multiverso todo de qualquer jeito. Pelo menos que seja por uma boa causa.

-Eu também era rebeldezinha assim - disse Banzai, se divertindo com a ingenuidade de Valéria - Espera até pagar seu primeiro boleto.

-Eu gostaria de pelo menos saber pra quem vou pagar - disse Val, novamente cruzando os braços, emburrada.

Banzai riu, sem deixar a garota perceber.

Val estava certa, é claro. A Hierarquia, um grupo de vários impérios multidimensionais, pregava justamente o que seu nome sugeria: a ideia de que todas as formas de vida, sem exceção, estavam sujeitas a um sistema de pontuação baseado em um algoritmo tão complexo que era regido por algumas das formas de vida mais sofisticadas do Multiverso. Praticamente não havia ninguém no comando - haviam, é claro, líderes, mas todos seguiam a rigidez dos algoritmos como a maior das leis. Você nasceu humano? Sua média é de 3,76 em 10 na escala de espécies desenvolvidas, ou seja, não espere muita ajuda da Hierarquia. Você nasceu hezglorita? Parabéns, você já tem imediatamente uma pontuação de 8,11 em 10 na mesma escala - todos os empreendimentos de sua espécie atraem positivamente a atenção das nações da Hierarquia. Praticamente não havia ascenção social fora dos parâmetros que o algoritmo gostava.

Não era a toa que o avô de Alex, Aldobrandino, havia se rebelado contra a Hierarquia e contra outros tão poderosos quanto. Não era a toa que tanto ele quanto Val tivessem opiniões fortes a respeito. Banzai havia encontrado a dupla há alguns anos. Eram encrenqueiros, de forma que sempre havia muita gente poderosa atrás deles - e eles sempre davam um jeito de se sobressair.

“Scorpia-83A, seu pouso é o próximo a ser autorizado! Nós do grupo MultiMall, com mais de 6 mil filiais espalhadas pelo Aglomerado Humano, gostaríamos de estender as boas-vindas. Não se esqueçam de aproveitar a liquidação da Caneta Vermelha, em mais de 70 de nossas lojas! Com produtos como neurocomunicadores e pacotes de transmissão para mais de oito milhões de canais de entretenimento, incluindo Multi Prime, Aldebaran Plus, Nickomenico, e muitos outros! Aproveite agora e leve…”

Banzai passou a mão pela transmissão holográfica, dispensando-a de vez.

-Certo, vocês já sabem o que vão comprar, né? - perguntou a capitã, enquanto conduzia a Scorpia até a plataforma de pouso sem pressa.

-Ô! Quero uma Pinky Punk Rad 5000 bem fodona, com aqueles propulsores atrás - disse Val, empolgada.

-Pinky Punk? Aquela cantora? - perguntou Banzai.

-É! É a linha exclusiva de hoverskate dela, com a mesma inteligência artificial do que ela usa nos shows dela!

-É tipo uma boneca misturada com um skate? - perguntou Alex, conseguindo risadas mais altas do que havia previsto.

-Não, né, vacilão! É uma inteligência artificial num hoverskate de última geração. Já viu a Pinky Punk cantar? Não tem nada de infantil nem fofo.

-Não sei não, Pinky Punk já foi do metal pesado, Val, mas agora… ela é bem ‘popzinha’ - disse Hilo.

-Cê tá me zoando, só pode! Pinky Punk explodiu um planeta inteiro no final do show dela no Cosmogonia!

-Ela botou até ambientalistas analisando o planeta para ter certeza de que não mataria nem um único micróbio! E aquela “Hyperspace Romance”, super melosa e animadinha? Virou tema de festa de criança no nosso mundo - rebateu Hilo.

-Sabe, para alguém que critica, você parece conhecer muito da Pinky Punk, meu bem - disse Banzai, arrancando risadas exageradas de Valéria.

-Presto atenção no que os jovens estão escutando - Hilo deu de ombros - Na minha época era Syd Nykebomba, Preston Hikaru, Guns and Roses… bah, mas depois que o Axl morreu, não era a mesma coisa.

-Axl morreu na sua dimensão? - Alex perguntou, com uma careta - Que triste.

-E você, Alex, o que quer comprar? - Banzai suspirou, claramente entediada, querendo passar o tempo.

-Quero uma espada-tutorial Arizai - disse o garoto, com um olhar brilhante e perdido no horizonte - O mestre Arizai deixou apenas oito dessas espalhadas por aí, uma delas está à venda em um dos sebos aqui.

-Caramba - respondeu a capitã da nave - Você tá levando a sério esse negócio de ser um Parágono, hein.

-Daqui a pouco ele tá soltando uns mantras de sabedoria. Que nem um monge - disse Juron, botando os pés no painel e se aconchegando na poltrona.

-Tenho que estudar bastante - disse Alex - Lá em casa, minha avó não ajuda.

-Ela não quer que você treine?

-Nah… meu pai não quer. Acho que ela resolveu respeitar o desejo dele - suspirou o garoto Corso - E não tem muita coisa na multinet, daí tenho que buscar esse conhecimento em outros lugares.

-”O verdadeiro guerreiro busca a paz e trilha o caminho da sabedoria” - disse Hilo, ironicamente, entoando a voz (e mexendo na barba) como um monge.

-”Ele domina o caminho do Dragão e do Tigre, mas seu aprendizado nunca está completo!” - emendou Valéria, fazendo uma pose de kung fu.

-”Quanto mais ele sabe, mais sabe que nada sabe. Assim, quanto mais ele aprende, menos ele sabe! No final, ele não saberá absolutamente NADA” - finalizou Banzai, aumentando as risadas ainda mais.

-”Hahaha”, vão rindo - desdenhou Alex, se reclinando na poltrona - Quando eu for um guerreiro conhecido no Multiverso, vou fingir que nunca conheci vocês.

-Vamos fazer o mesmo, Liu Kang - soltou Valéria uma última antes que Juron, o mais velho dos Escorpiões, intervisse.

-Não preste atenção nesses fracassados, Alex! Um Parágono trilha um caminho difícil e tortuoso. Tenho certeza de que você será um guerreiro tão incrível quanto seu avô e seu pai!

-Espero que sim, Juron… espero que sim - disse Alex, mais contemplativo.

Val ainda tinha uma piadinha com o “caminho difícil e tortuoso” descrito por Juron, mas decidiu guardá-la para si mesma. Sabia o quanto aquilo era importante para Alex e o quanto ele tentava se dedicar a seu sonho, ainda que sua família fizesse de tudo para mantê-lo como um garoto terrestre normal.

“Scorpia 83A, você acaba de receber autorização para pousar na plataforma Yaksa-10-7-Y. Nós do grupo MultiMall, com mais de 6 mil filiais espalhadas pelo Aglomerado Humano, gostaríamos de estender as boas-vindas. Durante um ciclo zetariano apenas, todas as lojas estarão com 25% de desconto em itens eloi, incluindo bekdals, amakalas e ebedushes de mão. Não perca! Durante um único…”

Banzai novamente dispensou o resto do anúncio holográfico com um suspiro aliviado.

-Finalmente! Credo, esse pessoal tá demorando cada vez mais pra liberar as vagas - reclamou.

-Bem, o que esperava? É a maldita liquidação da Caneta Vermelha. Ano passado, quase causou um tumulto geral nesse shopping - disse Juron, enquanto Banzai conduzia a nave suavemente até a plataforma do outro lado da estação.

A estação Diamond Times fazia parte do grupo MultiMall, que se estendia por vários mundos do Aglomerado Humano, como a propaganda dizia, mas o que não dizia era que o lugar abrigava uma população de milhares de pessoas que moravam e trabalhavam no que era essencialmente um shopping gigante, vendendo desde baterias quânticas para naves até brincos de luxo. Muita gente vivia, trabalhava, se casava e morria sem nunca sair daquele lugar - mas, quando se está falando de um construto do tamanho de uma lua grande de Júpiter é que pode-se ter uma real dimensão daquela realidade. Denúncias de abuso trabalhista não faltavam, mas a maioria não era divulgada. Ao mesmo tempo, as condições para uma vida de trabalho ali não eram de todo ruins, com hospitais e escolas por todos os setores da estação, tornando aquela uma sociedade baseada no comércio e consumo.

Alex apenas deixava o queixo cair. Já deveria estar acostumado a aquelas alturas, mas não: o Multiverso dava um jeito de tirar o ar de seus pulmões. O lugar era colossal, com fileiras infinitas de naves, de todos os tamanhos, cores, materiais e formatos esperando pelas promoções do lugar. Ainda que o Diamond Times tivesse uma robusta equipe e sistema de entregas home-delivery, as taxas não agradavam à todos, já que entregar um sanduíche McDaniels em outra dimensão sem que o mesmo esfriasse era um processo custoso.

E ainda que não fosse, vamos admitir: a taxa ainda seria alta apenas pela comodidade.

Haviam também aqueles que não apenas eram consumidores, mas eram distribuidores - se Alex e Val estavam indo para comprar bugigangas com o dinheiro de suas famílias, Banzai, Hilo e Juron, do grupo dos Escorpiões Escarlates, eram buscadores. Viajavam por todo o Multiverso buscando mercadorias de valor, relíquias e qualquer coisa que interessasse alguém financeiramente. Estavam ali para ganhar dinheiro com os únicos compradores do Multiverso que eram qualificados para lidar com o que tinham para oferecer.

-Banz, e vocês? Vão tentar vender o que mesmo? - disse Val, se livrando do copo vazio que se desfez assim que entrou no líquido da lixeira da ponte.

Banzai demorou dois segundos para responder, dentro dos quais lançou um rápido olhar a Hilo.

-Ah, o de sempre. Cristais tesseratos, joias antitempo, sementes de marutina… bobagens.

-Hum - disse Val, sem dar muita importância, já imersa no celular, cuja holografia pulava de sua mão.

Mas Alex capturou um nuance, que o deixou intrigado; Banzai estava escondendo algo deles, o que era raro, para se dizer o mínimo.

Sob a liderança dela, aquele time de Escorpiões nunca fizera nada de ilegal ou minimamente irregular.

Parte 01  /  Parte 02

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 © 2016 por Eduardo Prota

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