A Interminável e Caótica Black Friday  

Parte 01  /  Parte 02

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-Calibragem, chefia? Um boost nos propulsores, por apenas 250 créditos? - perguntou um droide pequeno, ao receber o grupo na plataforma de pouso.

-Não, valeu - disse Banzai, sem olhar para o drone.

-Posso também conferir seus conversores de energia. Sabia que 45% dos problemas mecânicos de naves modernas são causados por falhas nos conversores? - insistiu o drone.

-Sabia. Já conferimos o nosso, valeu - continuou Banzai, firme na marcha pela plataforma.

O drone mecânico ainda insistiria, com Banzai o ignorando completamente. Valéria começou a conversar com o mecanoide, aprendendo que seu nome era Hix e que ele trabalhava nas naves estacionadas na plataforma para ganhar uns trocados para sua família, também de droides. Aprendeu que seu modelo estava ultrapassado e eles deveriam ter se apresentado para serem desativados há anos. Porém,  acreditavam firmemente no arbitrarismo, corrente filosófica que dizia que tudo que tinha livre-arbítrio deveria ser considerado como vivo - por isso, se recusou a ser desativado e agora era considerado um trabalhador de terceira classe entre os droides, nunca sendo chamados para trabalhos significativos.

Por fim, Banzai se cansou.

-Faz o seguinte: limpa o pára-brisa para a gente - disse a capitã, esfregando o polegar no indicador e dedo médio, fazendo com que créditos holográficos nos dedos, jogando-os para Hix, que os pegou no ar sem jeito antes que desaparecessem, somando alguns números na conta bancária do droide trabalhador.

-Maravilha, capitã! Estará impecável quando voltarem! Boas compras! - disse o animado droide, prestando uma continência com seu magro braço robótico.

Enquanto entravam no túnel de acesso para as lojas, Val não conseguiu se conter.

-Limpar o vidro? Só isso? - perguntou ela - O cara tem uma família pra sustentar, Banz.

-Olha, Val - disse a capitã, como sempre se segurando para não estourar com Valéria - se ajudássemos cada droide ronin que encontrássemos por aí, não teríamos dinheiro e eles ainda estariam na pobreza, OK?

-Vocês são ricos! - ela argumentou, encolhendo os ombros.

-Fala mais alto, meu bem, acho que a outra metade do shopping ainda não ouviu - disse Juron - Malditos algoritmos vão nos oferecer naves de luxo agora.

-Dinheiro acaba, tá? Não podemos só sair ajudando todo mundo assim - disse a capitã, gesticulando como se aquela fosse a última palavra.

Val fechou a cara. 

 Alex sorriu. Sabia que sua amiga detestava perder uma competição, simples que fosse. Logo, porém, se esqueceu do ocorrido pois estava se deliciando com o ambiente ao redor - enquanto adentravam um túnel que dava acesso à área de compras, um holograma gigante passava a impressão de que os novos clientes do shopping estavam em uma praia em Olodena, com suas águas verdes e cristalinas. O holograma, é claro, era para que os clientes não se ofendessem: seriam sondados de diversas formas no caminho, raios de vários tipos procuravam por armas, irregularidades como contrabando, formas de vírus e até mesmo nível de radiação. Isso fora os vários parasitas de luz e outras coisas que humanos sequer conseguiam portar, mas ainda assim estavam nos scans.

Não era fácil juntar tanta gente de tantos mundos no mesmo ambiente sem que um milhão de problemas em potencial. E isso ficou claro assim que o túnel acabou e as portas automáticas se abriram, exibindo de repente um jorro de luzes de todas as cores possíveis imagináveis (e inimagináveis, visto que algumas cores não percebidas por certos humanai eram perfeitamente perceptíveis para outros). A entrada do shopping era justamente construída para impressionar os clientes; Eram formas, letreiros em escrita pentadimensional que poderiam até mesmo te transportar para um lugar diferente se você lesse por tempo o bastante. Haviam humanos de todos os tipos, altos, baixos, magros, obesos, das mais variadas etnias do Multiverso, com peles verdes, azuis, púrpuras, ocre, negras, marfim, variando radicalmente em cada aspecto do rosto, de maneira que cabelos pareciam competir uns com os outros num desfile de moda - todos se arrumavam para ir até o MultiMall. Era um evento social imenso onde alguns indivíduos queriam apenas conhecer pessoas - e, para isso, o shopping também se preparava, com áreas de alimentação e de interação enormes, incluindo os famosos Imaginariums, espaços virtuais onde você criava coisas ao seu redor e transformava seu próprio corpo em qualquer coisa. Assim, o cliente desse espaço poderia virar um bisão asaricano até mesmo dançar em pleno ar ao som de um k-pop frenético, mesmo nunca tendo feito nada disso antes. Alex já havia ido em um Imaginarium com Valéria e era absurdo: tomado de euforia contínua e fascínio, chegou a perder a noção do tempo, perdido naquele lugar que era uma mistura de holodeck  de Star Trek com filtro de Instagram, com formas e cores capazes de dar ataques epilépticos a quem não se prevenisse adequadamente antes.

-Só digo que não custa ajudar - continuava Valéria, incansavelmente - É o que a Causa diz, se ajudarmos uma pessoa, ajudamos todo o Multiverso…

-Já deu, meu bem - disse Banzai, se impacientando de vez - Vão comprar as coisas que querem comprar, é pra isso que viemos. Nos encontramos aqui às 14 horas locais no máximo, não desliguem os celulares.

-Banz… eu só quis dizer que…

-Val, sério, chega. Não viemos aqui pra mudar o mundo. Não se metam em encrencas. Alex, fica de olho nela - disse a capitã, se afastando.

-Me avisem quando forem para a Happy DayZ, quero um milk-shake - despediu-se Hilo.

-Não salvem o mundo sem mim, molecada - disse Juron, bagunçando o cabelo de Valéria.

A garota observou os Escorpiões Escarlates se perderem entre as mais diversas criaturas humanóides - algumas altas, algumas com o formato de uma caixa, outras dentro de estranhas esferas de energia que, conforme Alex já havia estudado, eram veículos para locomoção interna. Geralmente, quem os usava precisava viajar para lojas mais distantes do shopping… ou apenas estavam terrivelmente fora de forma.

Um grupo de garotas de pele azul e cabelos dread roxo escuros passaram por eles logo depois. Uma das garotas cruzou olhares com Alex. Sorriu para ele.

Ela linda. Uma telaxiana, como Alex havia visto apenas em fotos - um dos povos mais bonitos do Multiverso, que não envelhecia e tinha uma cultura exuberante e rica. A garota tinha tatuagens brilhantes que demonstravam que não era casada, como todas as suas amigas, certamente ali para se divertir fazendo compras com os créditos ilimitados de seus pais.

-Viu isso? - disse Alex, ainda seguindo a garota com o olhar enquanto ela se afastava, conversando com as outras. Ele quase perdeu o fôlego com o ocorrido - Dizem que quando uma telaxiana sorri para você, ela quer que você inicie conversa com ela. Val, tudo bem se eu…?

Quando Alex se voltou para a amiga, percebeu sua cara fechada.

-Eu só acho engraçado que nós é que salvamos o mundo, não eles - disse, apenas.

-Os… os telaxianos? - perguntou Alex, esperançoso.

-Quê? - Val perguntou, com uma careta - Que telaxianos? Tô falando da Banzai e os Escorpiões! Ela tem toda essa marra, trata a gente como crianças!

-É… - disse Alex, procurando a telaxiana que agora sumia na multidão de cabeças.

-Mas é sempre assim! Ficam tirando a gente, menosprezando. Isso me deixa puta de raiva, sabia?

Alex suspirou. Havia perdido sua chance.

-Ahã - confirmou, já sabendo que, se saísse correndo atrás da garota, Valéria jamais pararia de falar em sua cabeça a respeito.

-Quer dizer, é como se eles nem respeitassem a gente! - ela dizia, enquanto começou a andar pelos corredores do shopping, com aquele passo enraivecido de sempre - Isso não te deixa furioso?

Alex abriu a boca para responder, já sabendo que sua resposta não ajudaria a amiga naquele estado.

-Ah, Val, acho que eles se importam muito com a gente, por isso…

-Não sei nem porque nos chamam se não querem nossa companhia!

-Acho que é mais uma questão deles não gostarem quando a gente…

-Sete bilhões de pessoas! Foram só as pessoas que salvamos. Só sete bilhões. E isso só em Terra Prima! Ia ser bem pior.

-Bem, sim, mas no final, ainda somos os convidados na nave deles…

-Agh, você sempre do lado dos outros!

Alex não respondeu, apenas acompanhou os passos furiosos da amiga. Já a conhecia há tempo o bastante para saber que ela queria apenas extravasar as frustrações - Val nunca lidara bem com limites. Quando seus pais quiseram proibí-la de viajar pelo Multiverso, foi a primeira coisa que ela deu um jeito de fazer.

Ela andou furiosamente por vários corredores do shopping, com os punhos cerrados e o passo firme.

Até que finalmente parou. Cruzou os braços, sem olhar para Alex.

-Se perdeu, né? - perguntou Alex, quase sorrindo.

Ela não respondeu nada.

-Quer que eu olhe a direção no celular?

Val relutou com unhas e dentes a responder aquilo. Mas por fim, assentiu com a cabeça brevemente, mantendo a carranca.



 

-Onde eles estão? - perguntou Banzai, no elevador com um falso panorama das planícies exorianas.

-Parece que se perderam e acabaram de encontrar o caminho. Continuam no piso 36-A - disse Hilo, checando seu pulso.

-Sabe, não acho legal ficar monitorando eles por aí - disse Juron. Quando seu filho e sua nora olharam para ele, ele ergueu as palmas das mãos como se estivesse se defendendo - Só dizendo a verdade.

-Aqueles dois são encrenca, nós sabemos disso - disse Banzai.

-Ah, dá um tempo, Otsu - respondeu Juron, se impacientando - Eles só deram azar. E depois, fomos nós que aceitamos dar a eles uma carona.

-Se eu tivesse dito “não”, Val iria me cobrir de perguntas - disse a capitã, olhando para a mochila nas costas de seu alto marido.

-E não queremos perguntas sobre essa belezinha aqui, não é? - sorriu Juron ironicamente acenando para a mochila.

-É o trabalho, Juron - disse ela - O contratante pediu sigilo total e nós não somos amadores. Alex e Val vão ter que ficar de fora dessa.

-Acho que é o melhor. Eu mesmo preferiria que não soubéssemos o que é isso - Hilo disse, olhando para a mochila em suas costas - Me deixaria mais tranquilo.

Otsu Yonekura suspirou, forçada a concordar com o marido Chamada de “Banzai” desde a infância, não havia recebido o apelido à toa; Era a mais nova de sete irmãos e, sempre que uma briga irrompia em casa, era ela quem botava ordem na casa na base da porrada se precisasse, sempre gritando “Banzai” para fulminar os irmãos maiores. Não tinha medo de se arriscar e atacar alvos maiores que ela. Não tinha medo de grandes conquistas.

Aquela seria, talvez, a maior de suas conquistas. Talvez por isso ela tinha medo sempre que o conteúdo da mochila emitia um tímido brilho que teimava em não ser contido.

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 © 2016 por Eduardo Prota

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