Conto da Ponte

-OK, Alex! – disse Valeria, pendurada em cordas podres que tinham pelo menos oito mil anos de idade – Se eu morrer, por favor, limpe meu histórico do navegador, sim? Não quero que ninguém saiba o que andei pesquisando ultimamente…

-Estou pendurado em suas pernas no meio de uma ponte de cordas, prestes a conhecer o fundo de um desfiladeiro! Se você morrer, que raio de chance eu tenho de sobreviver? – eu perguntei, desejando que Valeria tivesse calças mais largas nas quais eu pudesse segurar.

 

A ponte era um problema, não nego. Mas estava longe de ser o último. Aliás, não era nem o pior.

-Nos entreguem o Pergaminho das Eras e nós os puxaremos de volta, terrenos! – disse o líder demonaki, uma criatura humanoide de aparência horrenda que estendia sua mão áspera e cinzenta a nós – Não temos nada contra a sua espécie!

Demonakis. Nosso segundo problema. Uma raça de guerreiros extremamente focada e hierarquizada. Eram liderados por Ainuran, um cara... difícil, para se dizer o mínimo.

-Puxem-os de volta e meus zangões rasgarão seus soldados em pedaços, Ainuran! – disse Chefe Klaaba, nosso terceiro problema – Deixe as crianças caírem!

Chefe Klaaba era um nuniri minúsculo, como todos os de sua espécie. O problema era seu poderoso cérebro: ele enviava mensagens de comando a seus zangões, membros de sua raça com maior porte, tamanho e asas.

-Sua imbecilidade não conhece limites, Klaaba? Se as crianças caírem, o Pergaminho se perderá para sempre – disse Ainuran, do outro lado da ponte que rangia e balançava de uma forma que me fazia estranhar que ainda não tivesse caído.

-Calculo uma chance de 38% de meus zangões recuperarem o Pergaminho enquanto ele cai – disse Klaaba, com sua voz metálica e aguda – Pena que demonakis não conseguem voar, Ainuran.

-Maldito! Arriscaria o Pergaminho só para não vê-lo cair nas mãos do meu povo, que tem o direito sobre ele? – esravejou o líder demonaki.

-Arriscaria tudo para não ver você e seu povo imundo ser bem-sucedido! Recue agora e eu os deixo viver!

-Recue agora e mesmo assim eu os caçarei até os confins do Multiverso, Klaaba!

-Chefe Klaaba, não se esqueça – corrigiu a diminuta, porém, confiante criatura.

-Ah, vocês se esquecem de um detalhe – disse Valeria, se agarrando como podia – Nós preferimos morrer a entregar o Pergaminho a vocês!

-Hã... preferimos? – perguntei, incrédulo.

-O Pergaminho das Eras pertence a todos os povos! Vamos levá-lo a Yulivern, onde é o lugar dele – Valeria gritou, determinada.

 

Houve um silêncio, cortado apenas pelo vento interminável que passava pelo desfiladeiro abaixo de meus pés.

-O Pergaminho queimará pelas nossas armas antes de se tornar uma relíquia de museu! – disse Ainuran, puxando seu rifle de plasma e apontando para mim.

-Alex... segura firme, ok? – disse Valeria.

-Nossas armas estão apontadas para você, Ainuran... não faça nada estúpido! – advertiu Klaaba, seus zangões assumindo formação de ataque.

-Está segurando firme, Alex? – perguntou Valeria, enquanto eu me agarrava às suas pernas.

-Não tenho muita escolha! – eu disse.

-Ok, vou soltar! Não se assuste!

-O QUÊ? – perguntamos eu e Ainuran, ao mesmo tempo.

-Exato, garota! Solte! Não há propósito na vida de um humano! – divertiu-se Klaaba com o anúncio – Suicídio é sempre uma opção razoável! Hehehe…

-Um... – Valeria começou a contar.

-Não faça isso, sua imbecil! – gritou Ainuran, aproximando-se das cordas em que nos agarrávamos.

-Não se atreva, Ainuran! Vou lhes impor uma morte nada memorável! – profetizou Klaaba.

-Dois…

-Menina estúpida! – Ainuran se precipitou em direção às cordas, ignorando a ameaça do inimigo e tomando um tiro de um dos zangões, recuando com o peito perfurado e então, caindo da ponte.

-Capitão! – gritou um dos demonakis – abram fogo contra essas vespas malditas!

Uma ruidosa batalha começou, com tiros sendo disparados dos dois lados e guerreiros caindo miseravelmente desfiladeiro abaixo.

Tiros. Tiros. Tiros.

-...o novo líder agora é aquele de vermelho, peguem ele, zangões...! – gritava Klaaba.

Mais tiros. E mais tiros. Luzes de plasma passando por todo lado, alguns passando muito perto de mim.

-...arrancar as tripas desse nuniri traiçoeiro! – gritou um demonaki, correndo pela frágil ponte acima de nós.

Gritos estridentes de um zangão sendo despedaçado por um bravo demonaki que o agarrou no ar.

-Peguem o maior! O maior não está caindo... vocês são burros, zangões? Eu disse o maior, o gigante ali! Rápido, ele está se aproximando – berrava Klaaba desesperado.

A ponte balançava como se quisesse sacudir a todos para fora dela.

Um enorme corpo rolou para fora da ponte e, sem vida, caiu girando em direção ao desfiladeiro, passando perto o bastante de mim para que eu pudesse olhar seus olhos cheio de ódio.

-...por Ainuran! Por Glassar! E pela Irmandade! – gritava outro demonaki, as armas rugindo contra os inimigos. Zangões caíam fulminados por toda parte da paisagem. Demonakis eram guerreiros excepcionais, principalmente quando percebiam que iam morrer.

-Idiotas! Não... aquele da esquerda... agora é o da direita... não... não, como podem estar perdendo? Eles sequer podem voar... agh, é demais para Klaaba gerenciar sozinho...! – lamentava o pequeno chefe, que tinha que coordenar os zangões numa batalha especialmente feroz.

 

Corpos caíam cortando o céu, como bonecos bizarros gritando em direção ao fundo do desfiladeiro. Tiros, tiros e, de repente...

Silêncio.

Até mesmo o vento havia parado de zunir.

-Bom... acho que deu certo – disse Valeria, ainda se segurando bravamente nas cordas – Alex, suba até a ponte, sim? Meus braços não têm mais força alguma.

-Certo... você não ia soltar da corda, então? – eu disse, enquanto me agarrava à jaqueta dela e tentava subir por cima dela.

-Não... eu só precisava criar a tensão certa. Ei, cuidado com o cabelo aí!

-Desculpa... segura firme, estou quase chegando…

Ao que consegui alcançar as tábuas de madeira da precária ponte que (quem diria!) aguentaram todo o peso da batalha, me deparei com Chefe Klaaba, em seu disco voador, olhando fixamente para mim.

-Não é muito valente sem seus zangões, né? – eu disse, esperando que ele não tivesse nenhum ás na manga. Comecei a puxar as cordas com toda a força que tinha. Era o mínimo que eu podia fazer pela garota que havia acabado de salvar nossas vidas com um blefe.

Ajudei ela a se recompor. Valeria realmente não conseguia sequer mexer os braços.

-Hã... acabei de chamar mais um enxame de zangões, vocês... não vão a lugar algum! – disse Klaaba, não conseguindo convencer nem a si mesmo.

-Lembre-se que poupamos sua vida, Klaaba – disse Valeria, enquanto terminávamos a travessia da ponte que havia sido interrompida por uma única tábua podre.

Chefe Klaaba não disse mais nada. Provavelmente, estava engolindo seu gigantesco orgulho, e aquilo levaria um tempo.

-Vamos lá, a singularidade já deve estar aberta, e não vai durar muito – disse Valeria, convicta.

-Como você sabia que tudo ia dar certo assim? – eu perguntei, ainda estupefato.

-Vamos, Alex, temos que voltar pra Yulivern e entregar o Pergaminho…

-Não, sério! Você provocou eles, eles se mataram de um jeito que não sobrou ninguém (bom, o Chefe Klaaba não conta) e nem precisou atirar, correr, nada do tipo! Como você consegue, Val?

-Ah, sabe como é – disse ela, enchendo o peito e sorrindo de orelha a orelha, convencida – Quando você se aventura pelo Multiverso, aprende a se virar, querido. A dobrar as probabilidades a seu favor. É que nem o Sun Tzu disse, “se conheces a ti mesmo e conheces o inimigo, você detona com eles”, essas coisas.

Andamos mais um pouco em silêncio, enquanto finalmente deixávamos a ponte de madeira.

Apenas o barulho de nossos passos na superfície rochosa daquela dimensão e alguns longos segundos se passaram.

-Val?

-Sim, Alex?

-Foi sorte, não foi?

Ela parou e sorriu feito uma criança.

-A mais pura sorte. Eu não tinha nem ideia do que tava fazendo. Hehe.

Os dias com Valeria sempre terminavam assim.

Siga Alex Corso

  • Ilustração_Sem_Título (1)
  • Facebook
  • Wattpad
  • Branca Ícone Instagram
  • Twitter
  • YouTube
  • White RSS Icon
  • White SoundCloud Icon
  • itunes

 © 2016 por Eduardo Prota

Orgulhosamente criado com Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now