Dancing Queen

-OK, segurem-se! - disse Acalan, enquanto conduzia a nave como um besouro saindo de uma fornalha.

A nave, aliás, parecia um besouro. Por fora e… por dentro.

-Estamos nos segurando desde que decolamos - avisou Valéria, sentada no banco ao lado, desconfortável - Alex, como estamos?

-Hã… se os triângulos são inimigos, estamos bem - eu disse, tentando entender a tela holográfica que se projetava diante da minha cara.

-Não são! Essa é uma nave temendari, ela identifica outras naves temendari como amigas. Círculos então são os inimigos - disse Acalan, rapidamente.

-Então estamos encrencados! Dois zangões!

E, tão logo eu terminara de dizer aquilo, nossa nave foi sacudida por dois disparos inimigos.

Tiros de aviso.

“Nave Hak-Sekh-Mep, pare seu curso imediatamente e retorne às docas, ou seremos obrigados a abatê-la!”, disse uma voz alienígena ecoando pelo cockpit.

-Eles vão mesmo abater a gente? - perguntei, genuinamente preocupado.

-Relaxa, garoto, a Central Nervosa não vai deixar. Ela sabe que somos carga preciosa - disse Acalan, movendo seus quatro braços pelos hologramas circulares à sua frente.

Mais três tiros sacudiram a nave. E depois, mais dois destruíram uma das garras da nave. Não pareciam tiros de advertência.

-Tem certeza? - perguntei.

-É possível que a Central Nervosa ainda não os tenha advertido a não nos abater - admitiu Acalan - Ela demora a cumprir suas tarefas às vezes.

-Ah, ótimo! - disse Valéria - Vou acionar contra-medidas.

A nave emitiu um som seco e curto.

-Você acionou as redes de pesca - alertou nosso piloto de oito membros.

-Sério? Parecia muito o símbolo… bem, não importa!

Acertando da segunda vez, Valéria conseguiu que os tiros seguintes perdessem o rumo quando nossa nave disparou as contra-medidas, nossa única proteção. Emitiam pulsos eletromagnéticos que afetavam os disparos alheios.

-Não vão durar pra sempre! - disse ela.

-Tudo bem! - disse Acalan, virando então seu pescoço 180° para trás, me passando um susto imenso - Está bem aí, Yotiro?

Atrás de Acalan, sentado numa poltrona com cintos de segurança amarrados, estava… um vaso de plantas alienígenas.

-Hum… Yotiro é o nome da planta…? - perguntei, meio que pisando em ovos.

-Não é uma planta, seu prima ignorante! É o último membro da raça yotiro! Trate-o com respeito!

-Desculpa, desculpa! - eu recuei, voltando aos controles - É que… parece um vaso de plantas. Tipo… muito.

-Tecnicamente, é um vaso de plantas - Acalan daria de ombros se sua espécie tivesse ombros - Mas é todo o motivo dessa missão suicida mal planejada.

-É, não nos explicaram muito o que era - disse Valéria - Só que era importante.

-Yotiro é como um embaixador, tem imunidade diplomática e tudo. Temos que levá-lo até a nova dimensão e replantá-lo lá. Assim, ele vai tomar conta daquele ambiente e sua espécie vai renascer aos poucos - disse Acalan - Os temendari têm outros planos para Yotiro. Planos bem sinistros. Bem, meu povo não faz as coisas pela metade. Por isso vocês não foram totalmente informados.

-Bem, agradecemos a confiança - disse Valéria - Acho que consegui controle dos campos de força, podemos sair do convés. OK… em 3… 2… 1…

Talvez meus sentidos estivessem me enganando, mas podia jurar que “Dancing Queen”, do Abba, começou a tocar no cockpit.

...having the time of you life…

-Que monstruosidade sonora é essa? Meus ouvidos não conseguem processar isso - disse Acalan, balançando a cabeça como se tentasse sacudir a melodia para fora do crânio.

...dig in the dancing queen…

-Desculpe, interpretei errado o comando, de novo - disse Valéria, seus dedos furiosamente controlando os painéis holográficos - Como é que vocês têm essa música aqui, pelamordedeus…?

...Friday night and the lights are low…

-Vou tentar passar o script certo para sua tela, só um momento - disse Acalan, ainda balançando a cabeça - Seria possível desligar essa sequência sonora? Realmente não faz bem para mim.

-Estou tentando!

-Val, nossos perseguidores pararam de atirar - eu disse, observando os pontos circulares se afastando.

...anybody could be that guy…

-Que estranho - disse o temendari, movendo seus quatro braços incansavelmente pelos comandos holográficos pairando no ar - Não desgrudem o olhar.

-Consegui! - disse Valéria, enquanto os campos de força azuis que nos continham dentro do imenso convés simplesmente sumiram, deixando à vista apenas o piso e chão dourados, com o espaço sideral entre eles como se fosse uma fresta negra no meio das estruturas douradas.

-Velocidade máxima! Eles estão armando algo, fiquem de olho! - avisou Acalan.

...with a bit of rock music, everything is fine…

As naves não faziam nada além de nos acompanhar pelo espaço.

-Parece que receberam o aviso da Central Nervosa - eu sugeri, com um sorriso no rosto. Só podia ser isso.

-É… é possível - admitiu o traidor de sua espécie, coçando o queixo com uma das mãos - É! Somos carga preciosa, oras. Não podem sair atirando na gente assim.

Valéria nos preparou para a saída.

-Saindo do hangar em 3… 2… não sei que símbolo é esse… 1…

 

Quando saímos, foi como emergir do fundo de uma piscina depois de ter calculado mal o próprio fôlego e quase sufocar.

Nada além de silêncio e uma explosão de estrelas brilhando estáticas à nossa frente.

...Dancing queen, feel the beat from the tambourine, oh yeah…

-Finalmente! As naves não estão mais nos seguindo - eu disse - Os danos à nave parecem mínimos.19%. Os auto-reparos já começaram.

-Bem… acho que eles não queriam Yotiro tanto assim - sugeriu Valéria, olhando para o vaso de plantas com cinto de segurança. Os frutinhos que saíam da muda se mexiam como se tentassem se comunicar conosco.

-É possível que a Central Nervosa tenha passado o comando errado para os zangões - disse Acalan, surpreso e um pouco maravilhado - Quando se é membro de o que é essencialmente uma colmeia de repartições públicas, informação nem sempre é repassada de formas eficazes, sabe. Ik, Ik, Ik - riu à sua moda temendari.

...See that girl, watch that scene… Dig in the dancing queen…

-Por todas as matrizes energéticas, alguém desligue essa monstruosidade! - disse Acalan, massageando os olhos. Para os humanos, isso significava estresse. Para os temendari, significava dor insuportável.

-Acho que consegui! - disse Valéria. A música realmente parou. Pessoalmente, não tinha nada contra Abba, então, não senti nenhum alívio - Sincronizei ela com meu celular sem querer, hehe.

-É como voltar a respirar - disse o agente duplo, levantando os quatro braços para cima como se desse graças - Pelas matrizes que me regem… obrigado. Música humana é um crime de guerra. O que é um tambourine, afinal?

-Ninguém sabe - disse Val, levantando as sobrancelhas - Alex, quando quiser me mandar as coordenadas, posso traçar o trajeto.

Fiz uma pausa um pouco longa demais.

-Tem certeza? Posso fazer isso por você…

-Não, o cálculo vai te sobrecarregar. Eles não separam a navegação em duas funções à toa - disse Valéria, organizando seus painéis holográficos que saltavam fora de seu controle.

-É que… pensei que você poderia… de repente… eh… proteger Yotiro.

Valéria parou o que fazia e olhou para mim.

-Como é?

-Ele quase caiu do banquinho da última vez! Ele vai… vai quebrar quando saltarmos no espaço.

Valéria olhou para Yotiro. A plantinha estava feliz da vida, fascinada com o ambiente ao seu redor.

Super imóvel com sua trava de segurança bem ajustada.

-Isso é por que eu cometi alguns erros? - perguntou ela, indignada.

-Não!

-Fala a verdade!

-É sério, eu não…

-ALEX!

-Ah, droga… sim, OK? É por causa disso - admiti - os comandos são difíceis mesmo, eu sei…

-Pode apostar que são difíceis, e tô tentando me adaptar a eles! - ela se justificou.

-Eu sei, mas é que… bom, se errarmos em um momento crucial, isso pode ser fatal. E traçar as coordenadas, isso é… bem crucial.

Valéria bufou, em tom de ironia.

-Inacreditável… você concorda com isso, Acalan?

-Contanto que ninguém coloque música, está ótimo pra mim - disse o temendari, distraído ajustando uma espécie de relógio em seu pulso.

-Beleza então - disse ela, retirando a trava de segurança de si.

-Val… - ela acenou para que eu parasse de falar e foi checar a trava de segurança de Yotiro, sem precisar fazer muita coisa.

Droga.

Detestava ter que fazer aquilo de tempos em tempos. Val era genial para lidar com pessoas e entidades de todas as espécies, mas tinha uma certa dificuldade em seguir sistemas. Principalmente sistemas muito fechados.

Era o que eu conseguia fazer melhor.

-Alex, tem atividade no Setor Ekh-to - disse Acalan - Cheque para mim, sim? É uma distorção, possivelmente uma nave temendari.

-Certo… acelere os cálculos para sairmos daqui, não temos muito tempo - eu avisei, dando os comandos para sondar o que raios seria aquele sinal.

Não precisei terminar.

Num momento de silêncio extremo, o estático céu estrelado do espaço foi tomado por uma sombra grotesca, que logo se mostrou familiar a todos nós.

Tínhamos treinado um bocado para aquela missão, e ali, logo à frente, estava o pior dos cenários de possível derrota.

-A Neva Kneva - eu disse, os olhos arregalados, olhando para aquela monstruosidade de nave como um sapo hipnotizado olhando para os olhos de uma cobra.

-Impossível - disse Acalan, horrorizado.

A Neva Kneva era a colmeia principal dos temendari. Tinha o tamanho de uma lua e parecia uma mistura de concha do mar com cavernas e colmeias de abelhas labirínticas. No topo, havia um losango brilhante, emitindo uma luz azul turquesa forte que invadiu o cockpit.

-Não é possível que Yotiro seja uma prioridade tão grande - disse Acalan, logo antes de um raio punjante travar todos os controles da nave.

 

OH, NOBRE ACALANIMAYO. O QUE FEZ?

 

A voz era de… uma deusa. Perfeita e cristalina, invadindo nossas mentes. Seria…

-Nobre Rainha! - disse Acalan, se levantando calmamente - Fui criado para ver imperfeições em nosso sistema… para pensar diferente… eu… eu preciso levar essa planta…

 

E NÃO CONFIA NOS SEUS, ACALANIMAYO? NÃO APRESENTA SUAS CRÍTICAS À CENTRAL NERVOSA DA COLMEIA E AINDA COMETE UM ATO TÃO GROTESCO DE INSUBORDINAÇÃO…

 

-Levaria anos… anos… - Acalan tentava se concentrar, a voz claramente o afetando fisicamente - Anos! Até que minha queixa fosse processada. Até lá, Yotiro já teria sido desconstruído e estudado, todas as suas propriedades… toda sua fisiologia magnífica seria absorvida e sua raça desapareceria…

 

POR NOSSA SUPREMACIA, NOBRE AGENTE! POR TEMENDARO! NÃO CONFIOU NA COLMEIA?

-Eu… eu… - Acalan tremia, como se tentasse vencer o próprio cérebro - Não queria trair a colmeia…

-Resista, Acalan! Nobre rainha, nós… - começou Valéria, apenas para ser bruscamente interrompida.

 

E AINDA CHAMA ESTRANGEIROS PARA AJUDAR EM MAQUINAÇÕES, ACALANIMAYO? ESSA ENTIDADE AGORA FALA COM IGUAL PESO DA VOZ DE SUA RAINHA?

-Não! Jamais, nobre Rainha… eu… eles… não sei… não sei o que eu estava pensando! - disse Acalan, a Rainha claramente dominando sua mente temendari como se ele fosse programado para isso (e era. Todos os temendari era, incluindo os agentes duplos como ele)

-Resista, Acalan! Estamos com você! - tentei. Ele nem mesmo se virou para mim.

 

YOTIRO É VITAL PARA A EXPANSÃO DE NOSSAS MATRIZES. VOCÊ NÃO DEVERIA TÊ-LO REMOVIDO.

-Re… realmente não deveria - ele disse, cansado de resistir - Diga o que será de mim, Rainha… esse servo está em suas mãos.

 

VOCÊ SOFREU DEMAIS COMO AGENTE. SEMPRE EM CONTATO COM OUTRAS ESPÉCIES, TÃO NOCIVAS E CONFUSAS COMO OS HUMANOS. VOCÊ NÃO PRECISA DE PUNIÇÃO, ACALANIMAYO. PRECISA SER LEMBRADO DE SUA LEALDADE E SUA NATUREZA. VENHA.

-Hã? - perguntou o temendari.

 

VENHA ATÉ MIM. FAREI DE VOCÊ UM ZANGÃO ORGULHOSO. AFINAL, NENHUM TEMENDARI MERECE SER SEPARADO DE SUA RAINHA. PEGUE YOTIRO E VENHA ATÉ MIM.

-Um… zangão? Eu… farei parte da… da cópula? - ele perguntou, maravilhado.

 

PARA SEMPRE, NOBRE ACALANIMAYO. VENHA.

 

A luz diminuiu. Acalan pareceu respirar novamente.

-Acalan… tudo bem?

 

O alienígena se dirigiu a Valéria bruscamente, como se possuído. Ativou a trava de segurança de Yotiro e tomou o vaso em mãos, seus quatro braços se desvencilhando das mãos da garota sem brutalidade - apenas como quem quer remover um obstáculo insignificante.

-Acalan, pare!

 

Ele ativou algo no vaso que fechou uma pequena redoma ao redor de Yotiro. Então, começou a ativar em sua poltrona o comando que abriria o pára-brisa da nave.

-Não, o que está fazendo? - eu falei alto, desesperado. Se o pára-brisa se abrisse, nosso oxigênio seria expulso quase que imediatamente. Os temendari podiam ficar no espaço pleno por horas. Humanos não - Acalan, pare com isso, vamos morrer!

Olhei, horrorizado, enquanto o pára-brisa de campos de força se abria lentamente, uma fresta gradativamente maior, causando uma fuga de ar forte no cockpit. Acalan não parecia se importar. Nem parecia pensar mais.

 

Eu era puxado para fora. Todos éramos. O vácuo do espaço nos chamava.

 

O espaço.

Eu costumava adorar filmes de nave. Todos.

Até estar realmente no espaço.

Quando você percebe a infinidade de pequenas coisas que pode te matar naquele ambiente inóspito, você passa a, no mínimo, respeitá-lo. Eu morria de medo do silêncio. Da minha pele inchar com a vaporização da água no meu corpo. Do frio. Do ar dos pulmões se expandindo violentamente. De gritar e não ouvir minha própria voz. Era o que estava prestes a acontecer conosco.

 

Um barulho de piano ressoou no cockpit, cortando o som do vento. Então, uma melodia que lembrava os anos 70.

 

You can dance, you can jive

Having the time of your life

See that girl, watch that scene

Dig in the dancing queen….

 

Enquanto Abba tocava pela nave, vindo do celular de Valéria, Acalan parava. Torcia a cabeça, como se algo o incomodasse.

-Gênio! - eu disse, me voltando para Valéria, que apontava o celular para ele como se fosse uma arma.

 

Logo, a luz turquesa da Rainha invadiu o cockpit mais uma vez, tentando persuadir Acalan, que se retorcia ainda mais. Parecia um inseto agonizando.

 

Valéria aumentou o volume do celular até níveis insuportáveis.

 

Looking out for a place to go

Where they play the right music, getting in the swing

You come to look for a king

Anybody could be that guy

 

Acalan, se retorcendo de dor, apertou comandos holográficos do relógio em seu pulso.

 

O pára-brisa se fechou, selando a fuga de ar.

 

With a bit of rock music, everything is fine

You're in the mood for a dance

 

-Des...desculpem! Terminem a… missão! - Acalan disse e logo depois desmaiou. Valéria conseguiu pegar Yotiro perfeitamente no ar enquanto o alienígena se estatelava no piso.

-Alex, tira a gente daqui! Rápido, antes que essa coisa destrua a gente de vez! - ela comandou, sentando de volta em sua poltrona.

-É pra já! Só preciso fazer os cálculos…

-Manda pra mim, eu ajudo!

Sem hesitar, lancei os comandos para dividir a equação do trajeto com ela. Alguns segundos se passavam, enquanto a Neva Kneva novamente tentava contatar Acalan com seu brilho, sem sucesso.

-Desculpa, Val - eu disse - Desculpa mesmo… eu...agi feito um idiota.

-Bom, você me poupou de dizer isso, então, relaxa, bebê - ela respondeu, como se não houvesse sido nada - Vamos aprendendo. Afinal, somos um time.

Teclávamos furiosamente. A qualquer momento, a nave-colmeia podia atirar em nós, ou simplesmente nos pegar em um raio-trator de algum tipo.

-Pronto! - Val disse.

-Pronto também. Tá tudo certo da sua parte? Nenhum erro de cálculo?

 

Ela sorriu para mim e ergueu uma sobrancelha.

-Não confia em mim?

 

See that girl, watch that scene

Dig in the dancing queen…

 

Sorri de volta.

-Com minha vida.

 

E, deixando desconfianças para trás, dei o comando para que a nave saltasse para longe dali.

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 © 2016 por Eduardo Prota

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