O Centurião

Vai ser hoje?

 

Eu sempre me pergunto, sabe. Quando atravesso portais dimensionais, chego a outros mundos, respiro o ar pela primeira vez, enfrento alguma criatura gigantesca ou até mesmo recebo uma mísera picada de um mosquito desconhecido… tem sempre aquela pergunta:

Vai ser hoje?

 

-A Centúria finalmente se cansou de vocês dois, duplinha dinâmica - disse Powers, girando o pescoço para estalá-lo (E também para parecer fodão. Estava funcionando, vamos admitir) - Dessa vez, foram longe demais.

 

Estávamos deitados depois da porrada. Acho que Alex estava desacordado. Eu não tinha muito ânimo para me levantar ainda Só via os pés dele passando de lá para cá. Pés revestidos com aeon, o chamado metal-vivo. Na verdade não era um metal, era uma energia que se comportava como matéria e formava as armaduras dos centuriões, como eram chamados.

Centuriões, cara…

Super-super-soldados.

-Dois centuriões mortos. Mortos! E tudo por causa da sua aventurazinha com a Caixa de Pandora - ele vociferava, apontando para nós dois - Têm alguma ideia do que causaram? Vocês sempre vão longe demais. São baderneiros.

-Não… sabíamos que era a Caixa de Pandora - eu disse, me esforçando para sequer levantar minha cabeça. Tomar uma rajada das mãos de um centurião deixaria qualquer um baqueado. E, estritamente falando, era ilegal segundo o próprio código deles. Powers não deveria ter atirado na gente. Mas Powers… não era um cara legal.

-Deveriam ter feito sua pesquisa, oras. Era uma Demanda Classe 8. Já está muito acima da qualificação de vocês. Se eu pudesse pegar Ikander na porrada… ele foi louco de confiar em vocês com uma demanda dessas.

Talvez ele estivesse certo. Talvez tivéssemos mordido mais do que podíamos mastigar.

Dois nuniri olhavam para nós do alto de uma duna prateada. Estavam curiosos com o que os estrangeiros faziam em seu mundo. Os nuniri gostavam de nós. Uma raça pequenina, com uma cultura muito peculiar. Mas duvido que gostassem o bastante para se intrometer.

Se apenas Alex não tivesse dado toda nossa comida pra eles… teríamos energia pra correr.

Pensando bem, não… Powers teria pegado a gente de qualquer jeito.

Não havia sido a primeira Demanda Classe 8 que pegávamos, mas essa realmente virou uma loucura. Espectros da D9. Depois os goblins motoqueiros conhecidos como Sharell (esses me deram medo). Sobrevivemos a eles. Eu e Alex nos tornamos bons em passar a perna nesses grupos. Daí, aquela feiticeira Viviane. Cara, que treta. Nunca tinha enfrentado uma feiticeira antes. Ela fez coisas que eu nem conseguiria imaginar. E ficou com a caixa para si.

Hernandez e Aurus foram tentar pegar a caixa. Pessoas boas. bons centuriões, nada arrogantes. Gostavam de mim e do Alex, sempre davam dicas. O que aquela Viviane fez com eles… não acho que ninguém teria sobrevivido àquilo. E Powers jogava na nossa cara que nós éramos responsáveis.

Os dois nuniri curiosamente se aproximaram de Powers, que não os viu a tempo e se assustou.

-Fora daqui, seus imundos! - ele vociferou, soltando um raio dourado das mãos sem mirar neles. Simplesmente agitou o braço em raiva, e o raio acertou uma das árvores que brotavam das dunas.

A árvore foi partida em três e caiu estrondosamente pelas areias prateadas daquele mundo.

Os nuniri fugiram, desesperados com o tamanho da demonstração de poder. Não nos entendiam tão bem.

-Quer… quer saber? - disse Powers, suas madeixas louras caindo pelo seu rosto, tão desgrenhadas quanto seu temperamento - Vou botar um fim nisso. Já chega. Cansei de baderneiros como vocês.

Suas mãos brilharam e, como se acompanhasse a manifestação de seu poder, a armadura aeon começou a se movimentar loucamente, com partes se remodelando e mudando de lugar sem um padrão certo.

E o cara começou a flutuar, como se a gravidade fosse brincadeira de criança para ele.

-Se queimar a gente… vão descobrir, Powers! - disse Alex. Olhei para ele.

Lá estava ele, ajoelhado. Tremia completamente. Pobre Alex… ele nunca desistia.

-Como é? - disse Powers, os olhos brilhando e a voz alterada enquanto o brilho dourado fluía por seu corpo e sua armadura.

-Vão descobrir. Vão rastrear seu poder… e encontrar nossos corpos. Leva a gente… - Alex parou para tossir copiosamente. Levou o punho fechado à boca, ainda trêmulo - Leva a gente pra Yulivern. Deixa a gente ir a julgamento. Você é um Centurião, droga.

-E no julgamento, seu papai vai intervir por vocês, não é? É isso que quer? - ele perguntou, um sorriso sádico nos lábios - Alex Corso, sempre um estrategista. Não dessa vez, garoto.

Powers voou habilidosamente até ele e o pegou pelo calcanhar sem esforço, erguendo seu corpo inteiro com uma mão só.

-Larga ele, seu desgraçado! - eu gritei, apenas para ver que ele vinha até mim fazer o mesmo.

Foi como um gigante me tomando pelo calcanhar. Me ergueu pelo outro braço como se eu não fosse nada.

-Vou fazer diferente, então - disse o centurião, voando para o alto - Durante essa missão, vocês caíram lá de cima e não sobreviveram. Que pena.

Eu e Alex nos debatíamos e tentávamos chutá-lo, mas chutar uma armadura de aeon era como socar uma rocha. Ele nem percebia.

 

Vai ser hoje?

 

Víamos as copas das árvores se aproximarem enquanto subíamos.

-Aprendemos nossa lição, droga! Solta a gente! -gritou Alex, logo depois, fazendo o que ele fazia de melhor: calculando as consequências de seus atos - Quer dizer… deixa a gente no chão gentilmente!

-Hehe. Vocês são engraçados. Vou sentir falta de suas piadas. Não há muitos viajantes que me façam rir como vocês - Powers disse, ainda subindo.

Seria… uma queda e tanto. Pelo menos cinquenta metros de altura. Estávamos quase passando das copas das árvores, onde os nuniri habitavam.

A maioria deles estava escondida. Eram inteligentes, apesar de parecerem primitivos. A maior parte dos bens e comida que adquiriam vinha dos portais aereos que os viajantes abriam na dimensão deles, que era tida como um refúgio discreto. Toda a cultura deles se baseava em pegar coisas que literalmente caíam dos céus, mas nunca haviam presenciado alguém tentando voltar lá para cima.

Powers olhava para cima como se não enxergasse o limite de até onde queria subir conosco. manobrava cuidadosamente entre os galhos das árvores.

Foi quando um dos nuniri entregou a Alex um objeto. Era… um bracelete? Não dava pra ver direito com tanto movimento.

Finalmente, Powers chegou até acima da copa das árvores. Era uma vista e tanto.

 

É…

 

É hoje.

 

É hoje que não voltamos para casa.

 

-Muito bem, baderneiros - ele disse, segurando a nós dois pelo calcanhar, prestes a nos soltar - últimas palavras. Valéria, que tal você começar? Afinal, é você que sempre entra nessas enrascadas.

 

Era… verdade. Nada disso teria acontecido se eu não insistisse em pegar demandas acima do nosso nível. Dois centuriões mortos, e agora eu...…

 

E Alex.

 

-Desculpa… desculpa - tentei falar, o desespero correndo pelo meu corpo como uma droga implacável.

-É meio tarde para me pedir desculpa, queridinha.

-NÃO ESTOU FALANDO COM VOCÊ! Alex… Alex… desculpa.

-Ah, entendi. Está se desculpando por causar a morte do coleguinha. É razoável - disse Powers, no ápice de sua babaquice - E você, Alex? Últimas palavras?

-Estou pensando - ele disse.

Alex segurava o próprio braço com a outra mão, por alguma razão.

-Bem, vamos, não tenho o dia inteiro, criatura! - vociferou Powers, antes de arregalar os olhos.

 

Arregalou mesmo. Um susto e tanto.

 

Viu que Alex apontava para ele um Reordenador.

 

-Fique com o troco, seu animal! - ele disse. E atirou.

O feixe branco da pulseira atingiu Powers no peito, e imediatamente, aquele monstro louro explodiu em dourado - para então, a explosão ser sugada para dentro como se alguém houvesse invertido o filme e, então… sumiu.

 

Nós caímos, sem nada para nos segurar.

 

Gritar é um impulso humano, nós sequer percebemos que começamos quando a gravidade nos convidou mais uma vez a conhecer as areias prateadas e duras daquela dimensão.

 

Passamos as copas tomando galhadas por todas as partes do corpo.

 

É HOJE!

 

Até que caímos em algo que, conforme fui descobrir logo em seguida, era uma rede de pesca nuniri.

Sãos e salvos. Inacreditável!

 

-Inacreditável! - eu disse, enquanto me acomodava na rede, inutilmente tentando me desenroscar das cordas. Logo, tomei mais um susto achando que a rede havia se rompido, mas ela apenas se fechou conosco dentro.

Os nuniri nos içaram gentilmente até as areias prateadas, onde a rede novamente se abriu.

-Inacreditável! - repeti - Como… como eles tinham isso? Como…?

-Troquei nossa comida com eles por esse Reordenador assim que o vi - disse Alex, tentando se desvencilhar da rede e da areia que entrava por nossas roupas - Acho que eles nem sabiam para que servia. Sei lá se aquela Viviane ia vir atrás de nós…

-Cara, mas… afe, cacete de rede que não sai… mas como eles sabiam que tinham que nos entregar logo naquela hora?

-Sinalizei para eles depois que Powers destruiu a árvore. Eles estavam bem preocupados conosco. Os caras são legais - disse Alex, enquanto os nuniri, com suas lanças e roupas adornadas de sucata, vinham ao nosso socorro, soltando sílabas soltas que eram sua língua.

Eles me estenderam a mão.

Respirei fundo.

-Não é hoje - eu disse, enquanto eles me erguiam da areia.

Os pequenos falavam empolgados ao nosso redor. Haviam entendido a situação mesmo sem falar nossa língua. Estavam aliviados que Powers não estava mais ali, e eu também.

-Então aquele babaca foi reordenado? - perguntei, tentando imaginar.

-Isso aí. Ele deve ter ido parar numa dimensão bem bosta - disse Alex, sacudindo a poeira da jaqueta - Reordenamos a existência inteira do cara. Espero que não se lembre nunca mais.

Os nuniri nos convidavam para entrar numa das árvores. Não eram tão abertos via de regra. Realmente estavam impressionados.

-Acho que vai demorar um mês pra essa coisa recarregar - disse Alex, olhando para o Reordenador, uma simples vara de metal com uma pequena esfera na ponta - Tava pensando em deixar isso aqui com eles. Afinal, vale muito mais do que um punhado de comida, e até lá, já vamos ter voltado pra nossa dimensão.

-Isso, Alex - eu disse, com um sorriso de admiração verdadeiro. Estaríamos mortos se não fosse por ele. Ele começou a dizer algo, mas eu o interrompi com um abraço.

Não foi hoje.

Quando o abraço se desfez naturalmente, andamos alguns passos pela duna prateada com os nuniri ao nosso redor.

-O que achou da minha frase de efeito?

-Hum? - perguntei - Ah, o “fique com o troco, seu animal”?

-É! Não consegui pensar em nada melhor.

-Acho você consegue fazer melhor.

-É, tô me encontrando ainda. Uma dessas vai ser  meu bordão um dia. Tem várias opções, vou testando com o tempo e as encrencas.

Sorri para meu melhor amigo.

-Você consegue, Alex. Você sempre consegue.


 

Em algum lugar do Multiverso, Derek Powers bateu seu cartão. Entrou, trabalhou no mesmo cubículo de sempre, com os mesmos colegas insuportáveis de sempre. Suspirou resignado pelo menos oito vezes durante aquele dia. Levou esporro de seu chefe. Não conseguiu vender quase nada pelo telefone. Bateu cartão novamente. Ligou seu carro barato e foi para casa, onde morava sozinho. Nenhuma mensagem no celular. Nada. Cozinhou algo rápido e assistiu televisão até pegar no sono.

Na noite anterior, havia sonhado que era um guerreiro cósmico, com uma armadura reluzente, respeitado e temido por onde quer que passasse.

Sonhos.

Pfff.

Não significavam nada. Nada mesmo.

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 © 2016 por Eduardo Prota

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