A Eterna Redoma Atlante

Almek Akal gritou em negação, para todos os mares no alto daquela torre.

-Como? Como é possível que o Conselho tenha retirado meus poderes de forma tão arbitrária? - ele disse, ajoelhado, com suas túnicas atlantes, sua pele azulada olhando para as palmas das mãos como se tivesse perdido algo que segurava há poucos instantes.

-Revisamos o Acordo de Sucessão - disse Choggs, com seu sorriso zombeteiro característico - Havia uma cláusula que estipulava que o herdeiro do trono atlante só poderia assumir se se declarasse atlante num juramento. Você tinha a Safira, mas não realizou o juramento. Então, ficou bem claro para eles que você era um usurpador.

-Isso é ridículo! Membros do Conselho, me deem mais uma oportunidade! Eu sou atlante, sempre fui! É meu sonho trazer de volta o glorioso Império Atlante!

Os seis membros do Conselho apareceram, como hologramas. Estavam mortos há mais de mil e quinhentos anos, mas suas almas estavam vivas na Torre da Eternidade, preservadas nos poderosos (e esquecidos) bancos de dados daquela civilização agora decadente.

-O argumento dos forasteiros procede, Almek Akal - disse uma voz monótona de uma dos membros - Você nasceu em Farastenik, antes de sua assimilação por Atlântida.

-Mas eu cresci sob domínio atlante! Farastenik era uma colônia atlante que ficou separada do Império durante apenas onze anos! - suplicava ele - Meus pais eram atlante! Minha língua é o atlante! Minha pele e minhas guelras são atlantes!

-Não podemos permitir impurezas no processo! - disse outra voz monótona.

-Literalmente, não podem - apontou Choggs - Esses caras aqui morreram há mais de mil anos. Não são programados para abrir exceções.

-Mas vocês ainda podem raciocinar! - implorava Almek Akal, movendo seus braços esguios. Era um atlante excepcionalmente alto, o que tornava seu desamparo ainda mais desconcertante - Eu escalei as Cachoeiras de Tentafek! Chorei sob o túmulo de Jangar Tkal!

Ele apontou o braço longo para Alex, segurando uma joia lilás na mão esquerda.

-Eu trouxe a Safira da Tiara de Untuluk! Subi todos os degraus da Escada da Tormenta para isso. Evoquei Tmal Tandrak para que me trouxesse forças para isso!

Valéria tombou o pescoço na direção de Alex, ao seu lado.

-Misericórdia, é muito nome - disse.

-É, também tô perdidaço - apoiou ele.

-Eu fiz tudo que o Manual do Grande Jangar pediu! Todas as etapas, na ordem certa! - lembrou Almek, os olhos arregalados como quem não acreditava no que estava acontecendo.

-É, mas esqueceu de carimbar uma das vias do formulário C-9 Azul. Acontece, cara, que nem DETRAN - deu de ombros Choggs.

-Cale-se! Vocês estão tentando me derrotar desde que me conheceram! Por quê? Logo eu, um atlante íntegro, com o código genético perfeito de meus ancestrais?

-É exatamente por causa disso - disse Alex, dando de ombros - Cara, os atlantes antigos causaram problemas pelo Multiverso inteiro. Mataram gente, arruinaram civilizações, e ainda hoje encontramos artefatos perigosos do seu povo espalhados por aí. A última coisas que precisamos é de vocês mostrando as garras como se fosse a Era da Indexação de novo.

-Tudo bem, Almek… você não cometeu nenhum crime até agora - disse Valéria, com as palmas da mão à mostra, como se tentasse apaziguá-lo - Você é filho de um comerciante. Você apenas leu demais sobre a glória atlante, isso subiu à sua cabeça. Nada do que te contaram era verdade. Atlântida causou mais caos e sofrimento do que conquistou qualquer glória...

-Cale-se, forasteira! Você tenta enganar minha mente com noções de igualdade quando você e eu não somos iguais! - bravejou Almek. Alex olhava para ele pronto para reagir no primeiro sinal de agressão física - Nós éramos o ápice do desenvolvimento humano! Éramos os mais próximos de deuses! Mas poluímos nossa genética com vocês. Foram forasteiros que destruíram o Império Atlante! Vocês são uma praga a ser controlada…

Almek avançou a passos largos até Choggs, Alex e Valéria.

Alex imediatamente ativou sua arma, que se montou rapidamente com peças flutuantes ao redor de seu antebraço direito, já apontado para o alvo.

-Vai com calma, garoto - disse - Você tem lido besteira demais. Quando passar pela Reeducação, vai aprender a pensar de formas diferentes. Foi esse pensamento fechado que acabou com o Império. Que tal sair desse casulo atlante?  Vai ser bom pra você.

-Jamais me levarão com vida! Não serei prisioneiro de Yulivern ou qualquer… qualquer mistura profana de raças que tenham a oferecer! - ele disse, então apontando para Choggs - E você… você ousa acreditar que conhece as leis atlantes melhor do que eu?

-Ei, eu só estudei os manuais, parça. Foram vocês que escreveram. Quem tá tentando subverter as regras é você - disse Choggs, com seu descaso habitual.

-Conselho, eu exijo uma revisão das regras! Meu pai era o Honorável Almek Nassul! Ele tinha favores pendentes com o governo atlante! Procurem seu nome!

-Recebido. A processar - disseram todos os membros holográficos do extinto Conselho. Então, emitiram um zunido baixo, como se processando informações e chegaram a uma conclusão - Negado. Os favores pendentes só se resumem a negócios e à esfera empresarial atlante. Não migram para os assuntos de governo.

-Então eu… eu invoco Misal Tal, já que o sol está próximo de um eclipse! Um novo governante pode ser aclamado se nenhum outro se pronunciar…!

O Conselho zuniu novamente. Choggs sorriu, confiante e zombeteiro, o que imediatamente tranquilizou Alex e Valéria.

-O novo governante durante o Misal Tal deve ser aclamado por atlantes ou apadrinhado por um atlante - disse o Conselho, em uníssono - Não há nenhum atlante por perto. Você pode criar um abaixo-assinado e transferí-lo para nossa base de dados. Você possui um abaixo-assinado?

Almek fez menção de responder, mas não respondeu.

-Eu… eu não…

-Negado - disse o Conselho, para o desespero do garoto.

-Burocracia é um saco, né, parça? - perguntou Choggs, convicto, cruzando os dedos atrás da nuca sem a menor preocupação.

Choggs sempre fora especialista em sistemas. Para ele, tudo era binário, simples e direto. Ele podia não saber o básico sobre relações humanas, mas coloque-o para estudar um computador, leis da física ou a constituição de um povo decadente e ele estaria totalmente à vontade.

-Argh… não é possível, não vim aqui para desistir… - disse Almek, atormentado, batendo na própria cabeça.

-Está tudo bem, Almek! O melhor da cultura atlante está preservado em Yulivern! Nos dê uma chance - suplicou Valéria, sempre apelando para o lado humano e pessoal - Prometemos que lá pode ser um lar tanto quanto…

-Cale-se! CALE-SE! - gritou ele.

Alex ativou o bracelete e ameaçou atirar.

-Já chega, Almek. Você vem conosco. Te coloco sob custódia de Yulivern, sob pena de profanar uma dimensão tombada como Patrimônio Dimensional, bem como roubar artefatos protegidos pelas Equações Legais. Mãos ao alto!

Almek travou completamente, contemplando o possível agressor. Pensava desesperadamente em uma saída, completamente acuado.

-Esse… esse é meu mundo! Vocês querem me privar dele? Da minha cultura? C-Conselho!

-Presente - disseram os membros holográficos, em uníssono, novamente.

-O… o governo atlante caiu! Todos morreram, eu sou o último! Estamos sob ataque! Eu invoco os protocolos emergenciais de Proteção da Cultura Atlante!

-Aquiescido - disseram.

Uma redoma de energia púrpura transparente desceu rapidamente sob Almek e os membros do Conselho, excluindo os três humanos cirurgicamente.

-Ah, ótimo - disse Valéria.

-Isso não adianta, Almek! Está perdendo tempo! - disse Alex, suspirando e se voltando para Choggs - Eles realmente acreditam que os atlantes estão mortos?

-São hologramas fantasmas presos a essa dimensão, Alex, eles não tem como checar nada - disse Choggs, menos relaxado - Eles realmente acham que Almek é o último atlante. Tenho que admitir que foi uma boa jogada…

Mal podia-se ouvir o que Almek discutia dentro da redoma de energia.

-Eu sou o último atlante. Peço para ser coroado para que nossa espécie possa continuar. Podemos clonar atlantes a partir de mim e começar uma linhagem nova - ele dizia.

-Recebido. O trono, no entanto, deve ser merecido - disse o Conselho.

-Eu sou o único que restou!

-Ainda assim, a legitimidade deve ser contestada. O governo atlante não pode nascer da afirmação de um único indivíduo.

-Mas quem eu poderia… - Almek parou de falar assim que olhou para fora da redoma semitransparente e viu os três forasteiros que insistiam em desafiá-lo.

Choggs relia o manual novamente a partir de um holokindle. Seus olhos dançavam rapidamente pelas letras atlantes buscando irregularidades ou falhas que pudessem ser usadas contra eles.

O cientista parou num único parágrafo chamado Combate de Independência.

-Ah, bosta.

-Que foi? - perguntou Valéria.

Na redoma, Almek apontava para os três.

-Forasteiros estão presentes. Eles contestam o governo atlante. É possível desafiá-los?

-São soldados ou diplomatas?

-Soldados, certamente.

-Devem ser derrotados em batalha, então, deixando clara a superioridade atlante. É possível desafiar a um deles no chamado Combate de Independência, conforme estipulado no manual de Jangar Tkal - proferiu o Conselho de forma monótona - É uma vitória simbólica da qual pode nascer a Nova Atlântida, conforme profetizado pelo próprio Jangar Tkal.

-Ótimo… eu já escolhi meu desafiante.

Do lado de fora da redoma, sem ouvir nada, Choggs não tirava o olhar de Almek.

-Não aponta, não aponta, não aponta... - dizia para si mesmo, baixinho.

Almek apontou especificamente para ele.

-Afe, era só o que faltava - disse o tibetano careca.

-O quê? O que foi? - perguntou Alex.

-Não pensei que chegaria nesse nível, mas ele invocou um Combate de Independência… acho que o nome já diz tudo.

-Droga - disse Alex - Você dá conta dele?

-Hã… claro, ele é bem alto, vou só usar a força dele contra ele - disse Choggs.

-Cê tá louco, Choggs? É um atlante, ele vai te massacrar sem dó! - argumentou Valéria, incrédula - Recusa! Cê pode recusar? - ela se voltou para a redoma - Ele pode recusar?

-Recusa será vista como derrota, e Almek Akal será legitimado, com plenos poderes - informou o Conselho.

-Ô, bosta - suspirou a garota.

-Relaxa, não vai ser tão ruim… acho. Ele é um adolescente!

-Que pode levantar uma moto - lembrou Alex.

-Valeu pelo reforço positivo!

-Fatos são fatos - deu Alex de ombros - Quando o combate acaba?

-Quando alguém morrer ou desistir.

-É tão ruim assim se ele só desistir? - insistiu Valéria, sem ver lógica na disputa.

-Almek vai ganhar poderes plenos de novo, vai arrasar a gente e um bocado de dimensões até alguém parar ele… se pararem - disse Alex, sombrio - Isso é sério. O líder atlante é uma espécie de super sayajin exagerado. E Almek não é um cara muito equilibrado.

-Não dá pra usar armas? Digo, sua arma, Alex.

-Não vão nem me deixar entrar lá com isso - disse Choggs, descrente - É totalmente contra as regras. Atlantes têm regras pra tudo, é assustador. Tem regras pro tipo de calçado a ser usado na arena. Bom, galera, se eu não...

E, justo quando disse isso, Choggs foi violentamente puxado pela energia da redoma, sem cerimônias, mesmo sob protesto de seus amigos. Caiu dentro do campo púrpura, aos pés de Almek Akal.

-Você, espertinho - disse o adolescente atlante, de pé com orgulho - Achou que poderia frustrar meus planos. Tem alguma ideia do que sacrifiquei para chegar até aqui? Esse, que é o mundo de meus ancestrais?

-Aff - disse Choggs, se levantando com cautela e gesticulando loucamente - Você nem conheceu seus ancestrais. Seus pais brigaram com você, você fugiu de casa e seus amigos extremistas contaram fábulas de adolescente. Você, todo desiludido, caiu como um patinho, sem sequer hesitar. Devia ter arranjado uma namorada, um emprego, mas nãooooo, “vamos reviver o Império Atlante”. Vamos matar mais uma porrada de gente só pra nos sentirmos bem”. Isso parece mais fácil, né?

-Você me insulta agora, mas não terá língua quando eu acabar com você - disse Almek, avançando de vez com um soco que, embora telegrafado, quase acertou Choggs na boca.Teria arrancado alguns dentes com facilidade.

O tibetano deu uma ágil cambalhota para trás e assumiu a postura de dag-pa, ensinado a ele, Alex e Valéria no Monastério, anos atrás. Havia treinado naquela mesma manhã.

Almek avançou como uma pantera de braços longos, sem técnica, mas com a enorme força e velocidade atlantes para compensar - Choggs escapou dos golpes por pouco, e, quando pensou ter se livrado dos murros, o pé de Almek, formando um punho púrpura, conseguiu surpreendê-lo, acertando-o no peito como um bate-estaca, tirando todo seu fôlego e o atirando longe.

Almek se recompôs e andou até um caído Choggs como o mais despreocupado Jason Voorhess. Choggs olhou ao seu redor.

Valéria tinha toda razão; não poderia enfrentar um atlante no mano-a-mano. Era um povo arrogante, que preparou biologicamente até a menor das castas para poder prosperar no pior dos ambientes possíveis. Mesmo sem treinamento, Almek tinha todas as vantagens, exceto uma: era um adolescente bravo que fugiu de casa por um idealismo idiota. Choggs já tinha enfrentado coisas maiores e, usando seu poderoso cérebro, podia fazer o que Alex sempre o ensinara a fazer: usar opções que ele nem sabia que estavam lá.

O rapaz olhou para a cúpula ao seu lado e, com todo o cuidado, tocou a borda com seu tênis. Como ele havia imaginado, o campo de energia repeliu seu pé violentamente. Atlantes adoravam um campo de repulsão que pudesse matar estrangeiros biologicamente mais fracos.

Choggs calculou a trajetória de Almek em direção a ele e, como se estivesse resolvendo um problema de matemática, calculou outra trajetória. Correu até lá, esperando que o oponente o perseguisse como um adolescente furioso. Deu certo. Almek começou a correr para interceptá-lo, como se ganhasse confiança a partir da fuga do inimigo.

Choggs foi interceptado conforme o planejado. Antes que as duas mãos de Almek pudessem lhe agarrar o pescoço, ele agarrou as duas enquanto ainda corria, as usou como pêndulo, conseguindo escalar o atlante com a força centrífuga. Almek, surpreso, tentava lutar contra o humano careca que agora se equilibrava com braços e pernas em seus ombros, tirando seu equilíbrio completamente e concentrando o próprio peso contra a nuca do atlante.

Perdendo de vez a estabilidade, Almek continuou a correr desembestado para frente, tentando não cair de boca no chão. Só não foi ao chão porque o campo de força encontrou sua cara púrpura antes: Choggs havia montado o atlante e o projetado contra a redoma. Almek e ele foram atirados longe, com uma força três vezes maior do que a do choque. Choggs rolou pelo chão de forma desajeitada, ralando o joelho, os dois cotovelos e torcendo o pé esquerdo. Já o adversário revoltado voou tão longe que acertou outra parede da redoma, sendo projetado uma segunda e, depois, uma terceira vez, até não ter mais inércia para voar por aí, caindo como um enorme saco de batatas no chão.

Choggs mancou até o adversário, tentando se aproveitar de seu atordoamento. O atlante estava caído, mas sabia-se lá por quanto tempo. O pé torcido não o deixava se apressar.

-Acertar na nuca… acertar na nuca… na nuca… - repetia o tibetano, tentando chegar até Almek, que se encontrava desengonçado no chão como um grilo pisoteado, passando uma impressão de fragilidade.

Uma falsa impressão; quando Choggs chegou perto o bastante, o inimigo acordou como se tivesse sido despertado de um sono leve.

Almek pegou o tibetano pela cabeça com as duas mãos e o ergueu no ar como se fosse nada. Com dois dedos e dois polegares em cada mão, o atlante começou a pressionar contra a traqueia e os olhos do rapaz ao mesmo tempo.

Instinto disse para Choggs tentar afastar as mãos de Almek, mas era impossível. O nível de força do atlante era facilmente maior, e parecia esmagar seu crânio.

-VIVA ATLÂNTIDAAAAA! - gritou Almek enquanto pressionava com toda a força.

Sem tempo algum de bolar algo mais elaborado, Choggs acertou um chute na boca aberta do atlante, com toda a força, fazendo-o engolir seu pé e imediatamente sufocar feio.

Almek soltou o rapaz por puro reflexo, mas Choggs havia aprendido sua lição; se manteria longe do adversário mais forte. O tênis do tibetano havia ficado inteiro dentro da boca do atlante, que tentava tirar o calçado...

E acabou vomitando com força, um reflexo genético atlante desenhado exclusivamente para expulsar qualquer substância estranha do sistema digestivo imediatamente. Uma série de estímulos fazia com que Almek vomitasse e parasse, vomitasse e parasse, como um cachorro.

Nisso, ele recuava involuntariamente, aproximando suas costas da redoma.

-Credo! - ele exclamou, sem saber o que fazer. Mas era a hora: precisava tirar vantagem daquilo.

O tibetano começou a correr, projetando seu corpo com toda a vontade para a frente e pulando as poças de vômito rosa atlante.

Chocou-se contra Almek bem a tempo de tomar uma vomitada nas costas - mas o impacto projetou o alto atlante contra a redoma e, como resultado, ele foi defletido como uma bolinha de pinball ao tomar um golpe certeiro dos bumpers.

Novamente, Almek Akal voou pelos ares para o centro da plataforma e caiu como um punhado de bambus mal-amarrados no centro, ainda fraco pelo ataque estomacal.

Mancando, sem um pé de tênis, ralado e com vômito atlante pelo seu corpo, Choggs ainda conseguiu socar com precisão a nuca de seu adversário e desacordá-lo de vez.

A redoma sumiu.

-Os resultados são sólidos - disse o Conselho, em seu uníssono monótono - Almek Akal não merece o trono atlante.

-Choggs! Tudo b… urgh! - disse Alex, ao correr para seu amigo e constatar que o vômito atlante que tingia o rapaz de rosa tinha um odor punjante.

-É, não é meu melhor momento - disse ele, verdadeiramente cansado.

-Vamos te tirar daqui, rápido - disse Valéria, sem se preocupar com o odor - Dá pra andar? Tem que ser agora…

-Dá sim… mas tudo bem, não tô tão arrebentado assim - disse o tibetano.

-Não é isso, é que você está sendo lentamente digerido por esse líquido - disse ela, mantendo o tom emergencial.

-É isso que extremistas fazem com pessoas boas… - ele dizia, caminhando com ajuda.

Ao que a nave Nightingale emparelhava com a plataforma onde estava, Valéria trataria Choggs com o setor de emergência interno, que pelo menos lavaria o vômito.

-Vou levá-lo conosco. Espero que não tenham objeções - disse Alex, olhando para o corpo desacordado de Almek.

-Negado - disse o Conselho, incisivo - Ele é o último atlante, deve ser mantido para que…

-Ele não é o último atlante, seus idiotas! - vociferou Alex - Existem milhões dos seus espalhados por aí. A maioria não quer restituir Atlântida.

-Mas… ele disse que…

-É claro que ele disse! Ele queria tanto o poder que a verdade não importava mais. Ele é uma criança amargurada, e vocês, o nobre Conselho Atlante, milenar, caíram nesse papinho.

-É nossa programação.

-Sim, e é uma péssima programação. Ficar enclausurado no próprio sistema é péssimo, vocês não enxergam as próprias falhas! Só aceitam a burocracia cega porque não são capazes de ver o externo.

-Não temos como nos comunicar com o exterior. Tudo que importa é o trono atlante e a manutenção de nossa cultura.

-Então, vocês vão ficar parados aí por mais uns mil anos - deu de ombros Alex - Não vamos mais deixar ninguém chegar perto desse planeta. Vocês gostam da solidão? Desse mundinho vazio?

Longa pausa. Nenhum dos membros do Conselho sabia como responder.

-Tem sido… um pouco solitário, colegas. Tenho que admitir - disse um dos membros, recebendo olhares de reprimenda dos outros - O quê? Sinto falta de interagir. Essa foi a maior interação que tivemos em séculos.

-Olha… - disse Alex, com as mãos na cintura. Logo depois, massageando as têmporas - Eu posso falar com Yulivern e instalar sistemas de comunicação aqui. Desse jeito, vocês podem conversar com outras dimensões, checar como estão os atlantes… eles estão bem. Juro. Alguns são pessoas boas, que só querem tocar sua vida sem matar ninguém. Só que o Império Atlante acabou, e quero que reconheçam isso.

Silêncio momentâneo. Zunido.

O Conselho conversava entre si através de algoritmos.

-Não temos como checar isso também. Reconhecido. O sistema de comunicação externa seria interessante para nós.

-Então, é uma troca. Vocês nunca mais reconhecerão nenhum líder atlante e nem darão poderes a mais ninguém? Sob nenhuma circunstância?

-Negado. Nosso objetivo é proteger…

-...o Império Atlante, saquei - emendou ele, sem paciência - Bom… vocês não vão mudar tanto, são programas de computador. OK, pelo menos precisam perguntar para outras entidades antes. Perguntem a mim. Perguntem à Yulivern, perguntem geral. Não tomem decisões grandes baseadas só no algoritmo de vocês, certo? O mundo não funciona assim. A gente conversa com outras pessoas pra entender o que tá acontecendo. E é um bom jeito de vocês não ficarem sozinhos.

-De acordo - disse o Conselho, simultaneamente - Até o sistema de comunicação externa chegar, não daremos poderes a ninguém.

-E principalmente não a adolescentes impulsivos.

-Falando nisso, qual será o destino de Almek Akal? Estávamos gostando do rapaz - disse um membro holográfico.

-Fale por você, Apkul - protestou outro - Achei o rapaz muito ingênuo.

-Ele é ingênuo sim - disse Alex, pegando os pés do atlante desacordado - E dar poderes pra pessoas assim é no mínimo, imbecil. Vamos levá-lo para Yulivern, onde ele será reeducado e aprenderá o que os atlantes fizeram do ponto de vista dos não-atlantes. De novo: tá aquiiii a redoma confortável e, para aprender, a gente tem que saiiiiiir dela - completou Alex, gesticulando de maneira pedante.

O Conselho não falou mais nada.

-Bom, quando estiverem conversando com outras pessoas, vocês vão aprender. Novas ideias, gente. É disso que a vida é feita - encerrou o rapaz,arrastando Almek Akal pelos pés e indo embora. Logo depois, se voltando para o Conselho holográfico novamente - Vocês gostam de Netflix? Não? Não sabem o que é? Vou instalar aqui pra vocês, vocês vão adorar. Acho que tenho um usuário vago ainda na minha conta. Vocês podem assistir o que quiserem. Já voltamos!

Novamente, o Conselho não respondeu. Assim que Alex entrou a bordo da Nightingale com o atlante desacordado e a nave partiu para outra dimensão, o silêncio voltou novamente àquela plataforma.

O mar era calmo. Não haviam pássaros. Apenas o pôr-do-sol. E a plataforma se erguendo acima do mar. E os hologramas.

Tudo estava como sempre havia sido.

E assim seria por milhares de anos, provavelmente.

Os hologramas se desligavam. Um a um. Membro a membro, voltando para a eterna espera.

Apenas um membro permaneceu, olhando para o horizonte onde a nave estava há alguns instantes.

O mesmo que havia admitido que se sentia solitário.

Estava mais cansado da mesmice do que os outros membros.

E só havia uma indagação na sua programação, que ele fez para o nada ao seu redor.

 

-O que será que é Netflix…?

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