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Prólogo 2/2

-Não é tão ruim quanto esse comercial, gente - eu comecei a argumentar.

-”Dr.Skopp”. Só isso. É só o que eu gostaria de dizer - disse Choggs.

-Ouvi dizer que eles têm se expandido bastante nos últimos anos - disse Alex - Antigamente, eram bem… verdes. Cometiam erros.

-”Dr.Skopp”. Sério.

-Olha, eu sei que o comercial não foi dos melhores - eu disse - Mas nos últimos anos, a Frontier tem tido aconselhamento dos koi-dar, dos tikkimen da Sexta Lua, até dos antigos Hegemon! Os caras melhoraram bastante, têm ótimas relações com os povos que não gostam de Yulivern e têm conseguido ótimos acordos comerciais e cooperações científicas! Tem tantos povos por aí que cooperam com eles! A Frontier cresceu bastante desde que a conhecemos!

Sandra levou a mão à boca, ainda reprimindo uma risada. Tentei prosseguir, séria.

-Alex, vamos lá, cara! Os Hegemon lidam com esses caras! Vocês conhecem, os Hegemon só lidam com os maiores!

-É, OK, admito, os Hegemon aconselharem eles é até interessante - disse Alex, sempre o mais equilibrado de nós - Mas… bom, é só que…

-Dr. Skopp. Dr.Skopp, cara! - insistia Choggs - Nem tentaram mudar o nome direito!

-Tá, olha, desculpem pelo comercial. É a versão pra Terra Prima, eles não investem tanto na nossa dimensão. Mas é uma organização forte! E olha, olha pra isso! - Mexi no celular até colocar imagens das operações da Frontier na tela. Eram belíssimas naves acamarianas com tecnologia tikkimen, o que fazia com que tivessem formas ondulares e espirais, como enormes conchas negras do mar, ornamentadas com linhas brilhosas.

As naves estavam no que chamavam de órbita rela relativa, ou órbita dimensional: a Frontier tinha 48 estações de comando. Cada uma dessas estações monitorava um dos 48 setores, representado, cada um por um planeta. A estação que orbitava o planeta do Setor 1 poderia alinhar sua órbita com a estação do setor 48, que obviamente orbitava um planeta diferente. Através da viagem dimensional, toda a Frontier se espalhava pelas galáxias e, ainda assim, constantemente se mantinha bem suprida, transferindo recursos, especialistas e até energia umas para as outras.

Yulivern havia crescido através de milênios como um colosso desgovernado. O que esperar de uma intercessão onde todas as espécies de milhões de dimensões conviviam? Tudo era incrivelmente caótico, com um governo pior do que o outro (até que os Hegemon tiraram poder dos indivíduos e entregaram-no para a Equação Viva, que calculava decisões no lugar de governo - só então, Yulivern virou uma força do bem).

Já a Frontier me pareceu mais limpa sempre que eu a estudava. Era uma organização militar-científica mais enxuta e até mais promissora do que Yulivern, em muitos aspectos - procuravam por bons oficiais, conhecimento e contatos. Poderíamos entregar todos os três, a partir do vasto conhecimento e experiência que tínhamos.

E, mesmo assim, Sandra não resistiu e finalmente explodiu de rir.

-Desculpa, Val, mas… naves! Naves, cara! - e voltou a rir descontroladamente.

-Naves são um pouco ultrapassadas, admite - disse Alex, começando a rir também - Fora que viajar pelo espaço não é uma das minhas coisas favoritas…

Alex realmente não dava sorte com viagens espaciais. Toda vez que tentávamos, ele acabava quase sendo sugado para o vácuo. Morria de medo.

Usávamos aves-de-rapina o tempo todo. Assim como naves de carga e embarcações específicas modificadas para cada ambiente. Mas aparentemente, naves espaciais eram o problema.

Era verdade que, para quem estava acostumado a abrir uma porta no Chile e ir parar no Japão, a ideia de passar horas preso em um avião, voando de um para outro, era ridícula.

Yulivern tinha controle dos portais e preferência de trânsito nas melhores rotas. Mas não fazíamos parte de Yulivern mais - era disso que eu precisava convencê-los.

-Olha, são naves baseadas em tecnologia tikkimen! Uma das melhores tecnologias! Vocês estão sendo preconceituosos - eu acusei.

-”Tenente, leve-nos para o Planeta NomeEstúpido Nove, velocidade de dobra 10” - imitou Sandra, completamente fora da discussão, enquanto Choggs supervisionava desgostoso até onde iria a zombaria da garota de sua série favorita - Ou então, sei lá, “Preparem-se para ativar a velocidade da luz! Segurem-se, as estrelas vão virar riscos no espaço”. Sério, como você chega a algum lugar na velocidade da luz? Tudo tá a bilhões de anos-luz de distância!

-Eles usam portais dos antigos Hegemon pra viajar, Sandra! Ninguém usa velocidade da luz, OK? - eu batalhava, quase perdendo forças.

-Sério? Eles têm autorização? - perguntou Alex, o mais próximo de entender meu ponto. O sempre confiável Alex.

-TÊM! É isso que tô tentando falar. A Frontier explorou mais de seis mil mundos nos últimos anos! Descobriu mais de mil civilizações e fez contato com elas! Algumas delas pularam da Era do Bronze pra Era da Energia Renovável em dois anos, sem um único tiro trocado! Tudo legalizado e supervisionado pelos Hegemon.

-Tá, mas continuamos ignorando o ponto principal aqui - colocou Choggs. Já me preparei para revirar os olhos em reprimenda - O Dr.Skopp. Ele é vulcano misturado com klingon? Ele destrói a porrada os inimigos da lógica? Não faz sentido!

Respiro fundo.

De todos, Choggs é quem consegue me tirar mais a calma.

Ele é um cientista, entende de cálculos, matemática e regras. Eu sou psicóloga, entendo de pessoas, sentimentos e motivações. Inevitável que entrássemos em conflito.

SEMPRE.

-Entendi, Choggs, o comercial machucou seu seriado favorito - eu disse, tentando manter a calma - Esquece o comercial. Acho que eu nem deveria ter mostrado ele. Mas ei! Você, Choggs… você…

Me levantei e, com um sorriso, fiquei em frente à televisão.

-Momento Val Motivacional chegando - alertou Alex.

-É a “MotivacioVal” - apontou Choggs.

É, eu tinha alguns momentos assim, em que tentava motivar todo mundo elogiando geral. Recebi o apelido mais imbecil de todos os tempos por essa mania. E lá vinha mais um desses momentos.

-Choggs, você era a mente brilhante de Yulivern, cara! Tem ideia do quanto eles perderam expulsando você? Quer dizer, você estava à frente no auxílio à colonização de Yotiro! Por sua causa, uma espécie escapou da extinção e povoou um mundo inteiro! Fora a descoberta do Wegbereiter, aquilo revolucionou a exploração do Multiverso em Yulivern! E como eles agradeceram você? Te expulsando por causa de uma mesquinharia política! O que isso tem a ver com ciência? Com as maravilhas que o Multiverso tem a oferecer? Anos de pesquisa e aprendizado jogados fora por mentes pequenas?

Choggs ergueu as sobrancelhas. Pronto. Era a vitória que eu queria: conseguir fazê-lo esquecer do Dr.Skopp.

-Mas… Yulivern tinha o Códex. E todo aquele conhecimento… não dá pra competir, Val - disse o tibetano.

-Quem disse que estaríamos competindo? Choggs, é possível que nenhum humano jamais tenha chegado perto da quantidade de conhecimento que você acumulou. Tem espécies em Yulivern que aprendem oito mil vezes mais rápido que nós.Para os graúdos de lá, você não é nada. Mas e os graúdos da Frontier?

Deixei o questionamento assentar na mente do garoto.

-Você seria o pica das galáxias lá, Choggs. Imagina! Chefe de Ciências Chogyal Sengupta! Spock seria fichinha perto.

Choggs ergueu os olhos, abriu um sorrisinho imaginativo e, pronto: eu sabia que o tinha na mão. Provavelmente demoraria para que ele admitisse; ele precisava terminar sua fantasia pessoal primeiro. Esse era Choggs. Sempre viajando na própria mente.

Mas eu conhecia bem o tibetano, já era fácil acertá-lo no ponto certo. Agora, vinha um desafio maior.

-E Sandra… Sandra, caramba! Quantos anos na graduação? Mestrado, Doutorado? Você enfrentou as mentes fechadas da sua dimensão e, ainda assim, conseguiu trabalhar em Yulivern, cara! Uma mulher da ciência! Fala doze línguas, já iniciou contatos com espécies inteiras! Algumas têm você como ícone semi-religioso! Ninguém conhece o Multiverso como você! Pense em quantas línguas, povos e costumes você poderia ainda estudar como xenóloga!

-Val, pára - ela respondeu, rapidamente - Olha, a Frontier tem protocolos e hierarquias militares. São bem mais fechadas que as de Yulivern e até as da minha dimensão! Vou… - ela parou para suspirar - Vou ter que começar tudo do zero…

-Nada disso! Com sua patente em Yulivern, você vira Comandante da sua própria nave em um ano! - eu dizia, falando a verdade. Tinha feito minha pesquisa - É só uma formalidade ter que subir de posto, eles querem, na verdade, viajantes bem experientes como você!

-Não sei, ouvi falar que tudo era bem burocrático lá.

-Isso foi antes dos Hegemon, eu te garanto. A Frontier hoje não deixa a desejar diante de Yulivern. E, sinceramente, sua pós-graduação foi em Harmonia Multidimensional, olha o currículo! Você é a mais velha e a mais experiente daqui. Eu esperava uma criancice dos dois aqui, mas de você…

-Ei! Não precisa ofender - disse Choggs, falhando em morder um Doritos no ar (e, assim, provando meu ponto).

-Tá… - eu disse, me voltando para o quarto, que era justamente meu amigo mais próximo - Finalmente, o fio condutor da parada toda. Alex Corso, o grande descendente de Aldobrandino Corso.

Alex revirou os olhos.

-Olha pra essa casa! Se estamos aqui hoje, é porque Alex começou tudo isso! Quantas vezes ele não já salvou nossas vidas?

Sandra e Choggs deram de ombros, não podendo contestar o argumento. Já Alex podia.

-Todo mundo aqui já salvou a vida um do outro, Val - ele disse - E olha… vamos parecer meio que o ex que tenta desfilar por aí com a namorada nova.

-E daí? Se faz bem pra sua auto-estima e irrita sua ex, que problema tem? - eu coloquei, pragmática - Yulivern ferrou com a gente, cara! E nós salvamos ela! Salvamos o Multiverso inteiro! Ia tudo vir abaixo, nós usamos nossas cartas e o que aconteceu? Fomos punidos! Punidos por salvar o mundo?

-É, isso foi babaquice pura - disse Choggs, a boca cheia de Doritos.

-É, ferrou com meus planos de continuar a vida acadêmica - concordou Sandra.

-E da Frontier, você pode continuar, gata! É isso que eu tô tentando dizer! - eu disse, esticando os braços em direção a ela, quase implorando - Existem ótimos programas de pós-doc lá. Cientistas de primeira linha, qualificados, de braços abertos para novas pesquisas.

Silêncio momentâneo.

-OK… me comprou - disse ela, simplesmente.

-Meh, eu vou também. Nem que seja pra fazer campanha contra esse comercial - disse Choggs.

-Alex… e você?

Ele alisava o próprio queixo. Alex tinha uma mente que fazia uma única coisa melhor que todos nós: pensar fora da caixa. Sob pressão.

Ninguém desbravava o Multiverso como Alex. Ele era um garoto deprimido quando o conheci. Agora, havia se tornado um dos viajantes mais respeitados de Yulivern, suas táticas eram estudadas por iniciantes e ele era presença certa nas missões mais perigosas, que requeriam um pensamento tridimensional.

Por isso, eu nunca estava animada em bater de frente contra ele. Ele conseguia subverter argumentos bons como jogadores de futebol fazem embaixadinhas.

Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e pressionou as pontas dos polegares contra o queixo. Clássico sinal de racionalização intensa dos Corso.

Três segundos de silêncio se passaram.

-OK, tô dentro.

Não esperava por essa.

-Hum… sério?

-Sério - ele disse.

-Não é um tipo de armadilha retórica, é?

-Ué, não. Seus argumentos são bons. Não tenho motivos pra duvidar - ele deu de ombros.

-Mas achei que você não tava animado.

-Não tô. Nem um pouco. Se dependesse de mim, continuaríamos sentados nesse sofá - ele disse, honesto, se levantando - E é por isso que eu aprendi a te ouvir durante esses anos todos.

É, como eu disse: pensamento fora da caixa. Meus olhos se encheram d’água de emoção.

Afe, eu ainda conseguia me empolgar como uma garotinha.

-Vamos pra Frontier, então?

Os três se levantaram, um pouco mais convictos.

-É… Você nos convenceu. Frontier, então, gata - disse Sandra, sorrindo, já animadona.

-Frontier! - bradou Alex, os dois punhos cerrados comemorando.

-Vocês vão deixá-la ainda mais convencida - disse Choggs, olhando para mim - Mas Frontier, então. Aquela equipe de marketing nunca vai saber o que os atingiu.

-Isso! - eu disse, empolgada - Ou sei lá, algo mais importante. Salvar vidas, fazer o bem, esse tipo de coisa. Podemos discutir no caminho! - bati palmas e me agitei - Vamos, vamos, arrumem suas coisas, vou preencher os formulários, checar o ponto de embarque mais próximo, partimos hoje! Nem mais um minuto assistindo o Conde Sei Lá, vamos, vamos!

Saí correndo como uma maluca pela casa. Acabei esquecendo que estava de meias, escorreguei e caí feio.

Me levantei rapidamente.

-Eu tô bem! Vamos, vamos, não temos tempo a perder! Arrumem as malas! Frontieeeeeeeeeer, baby!

E subi as escadas o mais rapidamente que pude.

-Já estou começando a me arrepender... - disse Alex.

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 © 2016 por Eduardo Prota

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