Frontier - Prólogo

Tardes de domingo.

Quem terá inventado esse conceito dantesco?

Certamente alguém que foi devidamente punido.

Meu nome é Valéria e sou brasileira. No meu país, aos domingos, não temos nada a fazer senão assistir Faustão, um apresentador de televisão que repetia as mesmas piadas há mais de quarenta anos, durante horas a fio - ou apenas deixá-lo ao fundo enquanto comíamos uma macarronada e a senhora dona de casa ficava reclamando com o maridão que não saía da poltrona. Hehe. Faz sentido se você for brasileiro.

Vim a descobrir que não era muito diferente na Louisiana. Certamente não casa da avó do Alex. Bom, agora era a casa do Alex. Mas o marasmo e a sensação de pós-almoço era a mesma.

Quer dizer, lá estávamos nós quatro como perfeitos perdedores, esparramados nos sofás e poltronas na enorme sala de televisão daquela casa colonial linda, mas sem muita vida.

Os parentes de Alex, por mais difíceis que fossem, acabavam animando a casa quando estavam por lá. Mas estavam todos empregados e cheios de tarefas em Yulivern. O mesmo valia para o pai de Alex. Todos salvando o Multiverso. Mas não nós.

Costumávamos ser bem diferentes no ano anterior. Tínhamos postos, tarefas e desafios em Yulivern. Ah, Yulivern… a intercessão entre dimensões que era como um parque de diversões para mentes férteis. De lá, poderia-se viajar para qualquer lugar. Literalmente.

Éramos viajantes, atravessando dimensões e encarando desafios bem acima da nossa capacidade. A cada semana, era algo novo: uma dimensão em que os russos eram os únicos sobreviventes da Terra, pilotando robôs gigantes contra parasitas de outras dimensões. Outra que a vida vegetal era a forma dominante no planeta. Ainda tinha aquela que utilizava mágica real pra fazer de tudo, desde veículos até tempero de comida. E tinha aquela em que a morte não era possível, e todos iam lá para jogar jogos muito, muito macabros, sem a menor consequência.

Não conseguíamos ficar parados. Haviam universos a serem descobertos! E agora, estávamos estagnados, em frente à televisão.

Era mais ou menos como terminar um namoro. Era tudo maravilhoso e, de repente, tudo era uma bosta.

-Acho que entendi. O Conde na verdade, quer terminar com a ruivinha lá porque quer a fortuna da Duquesa - disse Choggs, nosso amigo tibetano, deitado de ponta-cabeça na poltrona favorita do pai de Alex.

-Não, cara… o Conde gosta da ruivinha. Ele quer ficar com ela, mas ela não se interessa por ele, então, ele dá em cima da Duquesa - disse Sandra, esparramada no sofá com o celular na mão.

-Espera… ele gosta da ruivinha então? - perguntou Choggs, claramente confuso - Então, por que dar em cima da Duquesa, oras?

-Porque ele quer que a ruivinha fique com ciúmes - respondeu Sandra, deixando o celular cair no peito, sem fazer o menor esforço para apará-lo.

-Espera… quem, o Conde de Westchester? - perguntou Alex, de braços cruzados, olhando para a televisão apenas meio-acordado.

-É, o Conde Bonitão - respondeu Choggs - Sabia que não existia esse tipo de cabelo nessa época? Nem gel eles tinham.

-Quem se importa? - perguntou Sandra - Não sei de onde você tirou o “Bonitão”.

-Quê isso, o cara é um Cadillac humano! - concordou Alex - Não que me interesse, mas se eu fosse a ruiva, já estaria casada com ele e com herdeiros a caminho.

-Não precisa ser mulher pra isso.

-Nessa época, acho que o Conde não teria uma mente tão aberta.

-Alex, o cara usa topete com gel igual o Shawn Mendes.. A série claramente não se importa com fatos históricos - insistiu Choggs, para quem decisões baseadas no fator emocional ao invés do que era comprovado histórica ou cientificamente era incompreensível.

-Sei não, sou mais a ruivinha - disse Sandra - Aliás, não sei por que ele não fica com ela logo. Aposto minha grana nela.

-OK, aposto que o Conde não fica nem com ela nem com a duquesa - entrou Alex, sempre perspicaz - Os roteiristas vão querer surpreender, mas não têm nada melhor planejado, então entra uma terceira na história e o Conde termina ficando com ela.

-Boa… mas essa série não me engana - disse Choggs, coçando o queixo como se tivesse decifrado o código - Faz tempo que a Netflix não faz uma série sobre zumbis, então, acho que no final tem um surto de varíola e todo mundo começa a caçar zumbis. Termina com o Conde matando a ruivinha. E se matando. Mas ele não consegue e vira zumbi antes. A série termina aí. Sei lá. Algo nessa pegada.

-Já tá bem específico. Val, qual sua aposta?

Senti que acordava de um transe.

-Hã?

-Sua aposta! - insistiu Alex - Pra série. Com quem você acha que o Conde vai terminar? Ruivinha ou Duquesa? Ou zumbis?

-A ruivinha é irmã dele, e a Duquesa é cunhada, gente. O Conde só quer restaurar a honra da família depois da morte da esposa. Vocês não tavam prestando atenção em nada?

Silêncio, com apenas a televisão cuspindo diálogos de época ao fundo.

-Aaaah - disse Choggs, ainda meio desinteressado - Preferia uns zumbis.

-Zumbis que correm ou que andam devagar falando “miolos”? - perguntou Alex.

-Se eles não correm, nada faz sentido - respondeu o tibetano.

-Que isso. Zumbis que andam são clássicos, amigo - disse Sandra - Têm todo um charme.

-Pode ser, mas não fazem sentido. O exército mataria eles num minuto - continuou Choggs.

-Como? São milhões!

-O exército também. E têm metralhadoras. E mísseis. E tanques. Nunca entendi como zumbis lentos tomam o mundo. Não precisa nem correr! É só andar depressinha que foge de boa.

-Geralmente eles demoram pra entender. Quando o exército chega, já é tarde - insistiu Sandra.

-É, mas tem aquele filme em que o exército chega, joga uma bomba nuclear na cidade, a radioatividade sobe e, quando chove, dá mais zumbis por aí - entrou Alex - Não lembro o nome do filme, mas acho que era o George Romero.

-Ele é o Bram Stoker dos zumbis. Um gênio - disse Choggs.

-Não tem nenhum Bram Stoker dos lobisomens… ou tem? - perguntou Alex.

-Nah… mas olha, Mary Shelley escreveu Frankenstein bem antes desses noobs aí - disse Sandra - Se é pra dar títulos, Bram Stoker é a Mary Shelley dos vampiros.

-OK, então, quem é a Mary Shelley dos lobisomens?

-Peraí, vou procurar - disse Sandra, segurando seu celular, seriamente comprometida com a pesquisa.

É. Naquele momento, atingi meu limite. Há semanas tínhamos aquelas conversas completamente soltas e inúteis.

-Gente… vocês não estão cansados disso?

Um silêncio breve se seguiu enquanto todos olhavam para mim.

-Cansados de quê? - perguntou Choggs.

-Disso! Já faz um mês que não estamos fazendo nada além de ver filmes e comer porcaria!

-Ei! Não insulta meus Doritos.

-Agh… não aguento mais essa rotina! - me levantei e coloquei “Mute” na televisão, enquanto o Conde Bonitão conversava com o Rei - Galera… a gente tava em Yulivern ano passado! Não estávamos falando de monstros, estávamos enfrentando os monstros! Éramos os melhores! Quer dizer, ninguém recuperou tantas Relíquias, resolveu tantos conflitos e chutou tanta bunda de vilão superpoderoso quanto nós!

-É - disse Sandra - Éramos o Quarteto Fodástico.

-Ninguém chamava a gente assim - disse Alex.

-Chamariam se vocês me ajudassem com a divulgação do nome - Sandra deu de ombros.

-Tá, éramos os fodões. Cara… eu só… olha, não quero parecer a chata.

-Tem certeza? - perguntou Choggs, com semblante ofendido, comendo um de seus preciosos Doritos.

-Não quero parecer chata. Mesmo! Mas a gente tá ouvindo Celine Dion de pijama depois do término do namoro aqui - insisti, usando nossa metáfora favorita para aquelas situações - Yulivern terminou com a gente. É isso. Agora a gente tem que sair dessa!

-E ir pra onde, Val? Revogaram nossa licença, não somos mais viajantes - disse Alex, dando de ombros - A maioria das agências e sociedades interdimensionais não vai confiar na gente. Não podemos ser nem guias turísticos. Só podemos fazer algo clandestino, e, se formos pegos, vamos ser excomungados, com certeza.

Excomunhão. O pior pesadelo de qualquer viajante; era quando os átomos do seu corpo eram bombardeadas com limitadores quânticos, fazendo com que você ficasse para sempre preso à sua própria dimensão.

Alguns diziam que tinha até mesmo riscos a longo prazo: a pessoa excomungada não tomava decisões radicais depois de um certo tempo e, se acostumando, acabava definhando em frente ao sofá. Assistindo Faustão. Para sempre.

-Não sugeri isso - eu disse, falando a verdade - Mas estive conversando com a Helena e alguns amigos da Arcangel. Eles deram algumas sugestões, olhem só.

Assumi o controle da televisão a partir do celular.

-Ei! Agora nunca vamos ver a transformação do Conde em zumbi - protestou Choggs. Eu o ignorei.

A imagem da televisão mudou para um vídeo em anúncio. Começava com um símbolo familiar.

-Ok, essa é a mensagem que ela me passou. Ignorem a parte cafona.

Um rapaz e uma garota, com uniformes de Yulivern, olhavam de uma varanda, entediados. Assim que um narrador começou a falar com eles, os dois olharam para a câmera.

“Jovem!

Está cansado das regras e o sistema convencional de Yulivern?”

Os dois acenaram positivamente. E então, seus uniformes passaram a ser da Arcangel e a ambientação mudou para um lugar vulcânico, com o que parecia ser alguns refugiados chamuscados e maltrapilhos pedindo-lhes algo.

“Está farto de sempre dar o seu melhor e, por ineficiência do sistema, não conseguir ajudar as dimensões menos afortunadas?”

Novamente, os dois jovens idiotas acenaram a cabeça, enquanto tentavam sinalizar para os refugiados, com péssimas atuações, que o conteúdo de uma ampola havia se esgotado.

E, mais uma vez, suas roupas mudaram para dois exploradores dentro do que parecia ser uma tumba etep-seth. Eram um povo famoso por preservar os gases dos mortos como se fossem suas almas - curiosamente, esses gases valiam um bocado de créditos em qualquer mercado, já que podiam de fato reanimar outros corpos etep-seth com as memórias do dono dos gases.

“Não aguenta mais as frustrações da vida de viajante autônomo, sempre lidando com surpresas inesperadas, sem que ninguém venha ajudá-lo a tempo?”

A tumba solta gases no casal, que cai desmaiado (novamente, em um primor de atuações).

“Você busca ajudar o Multiverso? Busca explorar suas riquezas para que seus povos possam viver em harmonia? Você acredita que uma vida boa é uma vida de conhecimentos e aventuras?”

Os dois jovens pareciam acordar de sua morte e assentir vigorosamente com a cabeça.

Uma música vitoriosa começou a tocar no fundo enquanto eles sorriam.

“Seus problemas acabaram, jovem! Aliste-se agora mesmo na Frontier, o último bastião de exploração interdimensional e o melhor lugar para se crescer como viajante e oficial!”

Uma frota de naves lindas passava pela órbita de um planeta. Por um momento, esperei que a parte cafona do comercial tivesse acabado. Mas, já tendo assistido, eu sabia que ainda tinha mais.

“Comece como cadete, como o Cadete Feinlan!”

Um moleque bocó parou de operar um painel e sorriu para a câmera.

“Um Chefe de Ciências, como o Dr.Skopp!”

Um alienígena com feições humanóides, jaleco, sobrancelhas pontiagudas e uma testa rugosa parou de olhar em um microscópio e, com uma expressão severa, assentiu para a câmera.

“Um Engenheiro, como a Chefe Lamarck…”

Uma mulher negra sorria no comando de uma engenharia futurística, com um visor nos olhos.

“Ou até mesmo uma capitã de sua própria nave! Por que não?”

E, claro, uma capitã com um topete indomável cruzava os braços orgulhosa e apontou para a frente, como se emitindo uma ordem importante.

Logo, todos eles juntos apareciam numa ponte de comando futurística, com uniformes combinando.

O logo da Frontier aparecia logo abaixo.

“O que está esperando, jovem? Você, que atingiu a maioridade de acordo com seu povo, aliste-se já! A Frontier garante cidadania interdimensional, seja você de onde for! Frontier: levando você até o desconhecido!”

Cruzei as duas mãos e olhei para os três, ainda esparramados em seus assentos.

-Hã? Então? O que acham? - perguntei, com um sorriso esperançoso na cara.

-Acho que Gene Roddenberry está se revirando no caixão - disse Choggs, com uma cara fechadíssima. Star Trek era como uma religião para ele.

Alex estava tão desinteressado quanto antes.

Sandra parecia se esforçar muito para não explodir em risadas.

E pronto. Começava agora a batalha para transformar meus amigos naqueles dois idiotas do vídeo.

Continua...

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 © 2016 por Eduardo Prota

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